Balanços do 22º Cine Ceará (2012)

Equilíbrio em três longas-metragens

por João Nunes*

Ando inclinado a não levar mais em conta as premiações de festivais. Não porque elas, eventualmente, expressam opiniões distintas da minha, mas porque não importa mesmo quem ganhou ou perdeu. Há filmes melhores e piores, mas tenho a sensação de que hoje eu gosto mesmo do formato mostra, um painel de produções e, no caso do 22º Cine Ceará, envolvendo trabalhos ibero-americanos. Neste ano, um painel relativamente fraco, mas, em alguma medida, representativo.

E tive a impressão de que se precisasse escolher o melhor ficaria sem saber qual escolha efetuar diante de produções tão distintas – claro, isso ocorre em geral em qualquer festival, mas em Fortaleza deste ano as diferenças estavam particularmente muito acentuadas. Três filmes poderiam ter sido premiados: Violeta foi para o Céu, do chileno Andrés Wood; Febre do Rato, do brasileiro Cláudio Assis, e Um Amor, da argentina Paula Hernández. Analisados individualmente e sem a obrigação de compará-los (como um festival nos obriga na hora de escolher o melhor), gosto – com restrições – dos três.

Andrés Wood acerta ao optar pela narrativa sem preocupações biográficas de Violeta foi para o Céu e mais ainda na maneira como essa narrativa se dá: em flashbacks que não obedecem ordem cronológica, em imagens simbólicas em vez de informações sobre a vida da cantora/compositora chilena e nas sensações que Andrés Wood procura despertar. Uma viagem emocional, como definiu o próprio diretor.

Entretanto, ele tem diante de si uma tarefa ingrata, pois a personagem real, por importante que seja para a música e cultura chilena – latina, por extensão –, carrega peso imenso sobre as costas. O diretor a classifica como alguém que gostava de estar onde não a queriam – veja-se a cena em que ela canta Volver a los Diecisiete para uma plateia totalmente desinteressada.

E Violeta tampouco era fácil de lidar. O modo às vezes pouco gentil de se relacionar com as pessoas à sua volta, ou a inexplicável viagem sem a filha tão nova – um bebê – são dois exemplos. No segundo, soa paradoxal que alguém tão preocupado com o outro praticamente abandone a filha em busca da carreira na Europa. Claro, este fato a humaniza, mas dá ao filme tamanho peso, acentuado por fotografia fosca, que alguém, acertadamente, pediu “um pouco de luz”.

E, com tudo isso, Violeta foi para o Céu tem uma força irresistível, como demonstram algumas cenas – ela observando pelas frestas da barraca a partida do namorado, por exemplo – que revelam a sensibilidade de um diretor em busca da tal “viagem emocional” a que se referiu. E mesmo quando ele exagera ao sobrepor a cena de Violeta cantando a bela El Gavilán com imagens reiterativas da ave no momento de ataque a uma galinha. Por mais dramática que seja a cena, o diretor a legenda, e a música, pela sonoridade e letra, dispensariam tal artifício.

Febre do Rato

Achei exagerado o número de prêmios dado a Febre do Rato, em Paulínia, no ano passado, mesmo tendo saído do cinema arrebatado pelas imagens e pela força estética e discursiva do filme de Cláudio Assis. E, no entanto, não votei nele para prêmio da crítica – preferi Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra.

Um ano depois, creio ter votado corretamente porque, sim, as imagens de Febre do Rato são deslumbrantes (fotografia de Walter Carvalho), a câmera deslizando sobre o Recife e alguns momentos em especial (o personagem de Irandhir dos Santos na banheira, só para ficar num exemplo) me tocam profundamente. A maior prova foi a resposta do público, que ovacionou o filme ao final.

No entanto, incomodava-me o anacronismo do discurso do protagonista, um poeta apegado aos anos 1970 – que Cláudio afirma ter sido homenagem àquele período. Sua revelação de que o personagem é contemporâneo, usa o mimeógrafo e despreza o computador, entretanto, é revelador do próprio filme. Nesse olhar nostálgico de não se pertencer ao instante em que vive e de se recolher a um tempo que passou – e que não volta – reside o grande problema de Febre do Rato.

O filme tem linguagem atraente, belíssima fotografia, o tema marginal que contrapõe a caretice, a nudez sem pudores que, igualmente, confronta um mundo hipocritamente pudico, e uma ânsia por externar visão muito particular de mundo que só Cláudio Assis consegue fazer no cinema de hoje no Brasil.

Ocorre que o discurso é passadista – mesmo que o diretor insira na história fatos atuais e mesmo que consideremos careta estes nossos tempos (e, de fato, são). Mesmo assim, o discurso daquele poeta nunca vai encontrar eco nos tempos de hoje e não só porque são tempos mais conservadores, mas porque o discurso envelheceu. Trazer ideias, imagens, comportamentos e posicionamentos dos anos 1970 e tentar adaptá-los aos dias de hoje não os torna contemporâneos.

Um amor

Por falar em caretice, eis um filme conservador na linguagem, nada de novo, nenhuma ousadia, cenas quase pudicas de sexo. E, no entanto, tem um frescor ao contar uma história tão velha, tão comum. O primeiro mérito é saber ser simples e eficiente. Mas o longa argentino vai para muito além da eficiência.

A começar do roteiro bem desenhado – qualquer história se torna potente em um roteiro bem escrito. E Um Amor nada tem de novo enquanto história, pois fala de impossibilidades; neste caso, por conta da ditadura, tão magistralmente inserida – é só um detalhe, uma menção, e tudo se torna crível e determinante.

De longe, ele lembra Era uma Vez um Verão (Robert Mulligan, 1971), pois trata de um rito adolescente de iniciação (e se passa num verão), mas a relação em Um Amor é mais complexa, pois envolve um triângulo – clássico do cinema. Porém, um triângulo rico na sua conformação. Os dois rapazes se apaixonam pela mesma garota e, ao final, os três atravessam a mesma ponte do rito de passagem para a vida adulta. E, cada um deles supera o trauma adolescente de um modo muito particular. O fatídico encontro 30 anos depois traz à tona os conflitos nunca sepultados.

Poderia ser apenas mais um filme em que o passado é revisitado por pessoas adultas e trazidos do fundo da memória para que os personagens se lamentem e se culpem. Paula Hernández (baseado no conto do também argentino Un Amor para toda la Vida, de Sergio Bizzio), porém, vai além do lamento e culpa. As circunstâncias são as culpadas. Mas quem pode dominá-las? Portanto, o trio se reencontra para um acerto com o passado, mas certos que o passado não mais existe – existe o hoje cercado de lembranças boas e ruins do ontem.

Nada disso é novo, como se vê. Ainda assim, Um Amor toca porque em momento algum a direção força a barra para que nos emocionemos, não há um instante piegas sequer, pelo contrário, a direção se mantém equidistante, num relato que quase chega a ser seco. Pode parecer fácil, mas é dificílimo conseguir tal efeito.

Cuba e Guatemala

Lamentei a ausência de Juan de los Muertos, de Alejandro Brugués, na competição oficial. Não que seja um grande filme, mas o inusitado nele o credenciaria. É uma grande sátira aos filmes de entretenimento norte-americanos (de ação, de catástrofes etc) e, ao mesmo tempo, uma grande sátira a Cuba com todos os seus problemas econômicos e políticos. Daí o interesse que desperta.

O ator Jorge Molina parece engraçado, mas é sério ao dizer que Cuba perdeu a capacidade de debater, pois há somente um modo de pensar, um lado único de conduzir qualquer discussão. E que os jovens da nova geração, seus alunos na universidade, só pensam em ir embora do país. Estas questões estão no filme em tom de sátira, mas servem, e muito, para uma reflexão.

E faria, por fim, uma menção a Distância, do guatemalteco Sérgio Ramírez. Há enormes problemas neste filme, a começar do roteiro, das atuações, ambientações. No entanto, há uma honestidade comovente na maneira como ele usa uns poucos dólares (poucos mesmo) para narrar parte da história de opressão em seu país. Não há aqui nenhum espírito de pena que se deva ter a um cinema pobre como o da Guatemala. Pelo contrário, o pouco dinheiro está refletido na tela em um trabalho que deixa rastros.

* João Nunes é crítico de cinema do Correio Popular, de Campinas.

Zumbis made in Cuba

por Paulo Henrique Silva (originalmente publicado no jornal Hoje em Dia em 14 de junho de 2012).

Por incrível que pareça, um bom sintoma de democracia são os filmes de terror. Além de muito sangue, vísceras e sustos, o gênero vem servindo como metáfora para alguns dos capítulos mais importantes de nossa História. Até mesmo um país tão fechado como Cuba acaba de se render a mortos-vivos que invadem a capital Havana, não restando outra alternativa aos sobreviventes a não ser virarem, sob a efígie de Che Guevara, mártires numa luta suicida ou improvisarem um barco em direção a Miami, nos Estados Unidos.

Por essas poucas linhas já dá para perceber a forte carga política presente em Juan de los Muertos, sensação nos festivais onde é exibido. Na 22ª edição do Cine Ceará, encerrada no dia 8 de junho, a reação não foi diferente. “Ajudamos a quebrar os estereótipos que envolvem filmes de zumbi. Tem mortos-vivos, mas dentro de uma leitura política e latino-americana. Quem vê, fica fora da base”, registra Gervasio Iglesias, produtor da Espanha, país que possibilitou boa parte dos críveis efeitos especiais desse primeiro longa-metragem de terror da Cuba pós-Revolução.

“Há uns dez anos, seria impossível fazer um filme desse tipo em Cuba, o que mostra que, de alguma forma, as coisas estão mudando por lá”, destaca Jorge Molina, um dos protagonistas de Juan de los Muertos, presente na exibição cearense. Ele é responsável pelos principais momentos de humor, destilando piadas de duplo sentido que vão desde a situação de pobreza do país (mortos-vivos) ao anúncio oficial do governo de que são dissidentes a serviço do imperialismo norte-americano (álibi para todos os problemas cubanos).

A maior ousadia do diretor Alejandro Brugués está na construção de personagens que vão contra a ideia do “homem novo cubano” propagandeado pela Revolução. Juan, vivido por Alexis Días de Villega, é um vagabundo que resolve ganhar dinheiro com a chegada dos indesejáveis canibais, montando uma equipe de “caça-zumbis”. Seu slogan é “Juan dos Mortos: Nós matamos os seus entes queridos” – alusão à separação de familiares devido à fuga para os Estados Unidos ou por simples divergência política, que resultou em execuções e prisões.

Curiosidade: um dos integrantes da equipe, California, é interpretado por Andros Perugorría, filho de Jorge Perugorría, ator que ganhou fama internacional ao fazer, no filme Morango e Chocolate (1994) um artista gay revoltado com as políticas do regime de Fidel Castro dirigidas aos homossexuais. Em Fortaleza, jornalistas compararam os trabalhos políticos do diretor desse longa, Tomás Gutiérrez Alea, com a trama sobrenatural de Brugués. “Jamais me atrevi a querer dar continuidade à obra do Titón”, refuta o realizador de Juan de los Muertos.

Molina observa que, na década de 1960, o governo de Fidel implantou, através da Fundação do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cubanos (Icaic), os conceitos sobre como “o homem novo cubano” seria mostrado pelo cinema cubano. “Os protagonistas deveriam ser homens exemplares, que mostrassem amor à pátria. Mas depois do período especial, a partir de 1989, a nova geração já tinha perdido esse apego nacionalista e a ideia de homem novo se diluiu. Já não há mais o homem perfeito que queriam criar. Esse passou a ter virtudes e defeitos”.

Brugués salienta que a recepção ao filme em Cuba, onde foi lançado há três semanas, vem sendo favorável, embora os jornais não “ressaltem a dupla leitura política”. A produção não recebeu apoio financeiro estatal, mas os realizadores sublinham que não houve interferência nas filmagens, com liberdade para usar os monumentos históricos como cenário. O grande interesse do público foi percebido na exibição no Festival de Havana, no ano passado, quando cerca de 15 mil pessoas, segundo o diretor, não puderem entrar na sala. “Parecia show de rock”, diverte-se Brugués.

Engana-se quem pensa que o cineasta teve dificuldade para escalar o elenco e a equipe técnica. Molina lembra que toda a classe artística queria participar do filme. “Os atores, nomes importantes em Cuba, se ofereciam até para pequenos papéis. Não é um filme que estamos acostumados a fazer. Por isso muitos entraram apenas para morrer na trama, como figurantes”, afirma. Molina, que também é diretor e professor de cinema, frisa que é ator por hobby e chegou a interrogar Brugués das razões de ter sido escolhido. “Havia atores melhores do que eu, seguramente”.

Quando notava que seu desempenho em determinada cena tinha sido abaixo do esperado, ele brincava: “Chamem o Mario Guerra”, citando um dos atores cubanos mais importantes da atualidade. Para seu alívio, as críticas internacionais não pouparam elogios à sua atuação cômica. Apesar do êxito no exterior (o filme já foi vendido para 12 países, como Alemanha e Japão), a vida de Alexis e Molina em nada foi alterada. “Ele continua morando numa casa alugada na Rua Zapata, em Havana, e eu em Santo Antonio de los Baños”, lamenta.

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