Gramado e a geração atormentada

"Ponto Zero" (RS), de

“Ponto Zero” (RS), de José Pedro Goulart

Por Ivonete Pinto

(Este texto é sobre filmes que não foram lançados ainda comercialmente e traz spoilers)

Alguns festivais de cinema têm propiciado que se abra uma fresta para espiar o Brasil. Os filmes selecionados, independente de uma elaborada proposta curatorial, acabam por revelar um momento histórico pensado a quente. Seria randomizar o debate se a partir de uma seleção de meia dúzia de filmes afirmássemos que tal tema representa uma tendência, pois outro festival, na mesma época, pode mostrar um conjunto de produções com outra temática. A “cena” só pode ser identificada e estudada passado um ano pelo menos do lançamento da produção atual. Entretanto, é tarefa da crítica perscrutar sobre o que viu sem maior tempo para se distanciar.

Na 43ª edição do Festival de Cinema de Gramado bastou acompanhar a programação para o tema emergir. Tanto em longas quanto em curtas, evidenciou-se uma certa crise da estrutura familiar no seio da classe média brasileira. E vimos muitos protagonistas crianças e adolescentes desamparados, perdidos e carentes. Sofrem de “despertencimento” de uma época, de um lugar.

Há que se lembrar que toda esta produção, gestada há mais tempo (“Ponto Zero”, por exemplo, tem quase uma década desde o argumento à finalização). O Brasil de 2015, de crise institucional e financeira, de revolta, de manifestações fascistas, de beco sem saída, ainda não está nas telas. Tivemos no ano passado reflexo das manifestações populares dos black blocks, como “Brasil”, de Ali Muritiba (2014), e “Bashar”, de Diogo Faggiano (2014). E reflexo nos incendiários vídeos anônimos, como Leblon em Chamas (ver revista Orson nº 5). Como espelhamento do que vinha acontecendo na Europa e no Oriente, o Brasil também produzia suas passeatas e o que parece estar sendo criado a partir disto agora é o day-after dentro das casas, na cabeça dos jovens.

Famílias disfuncionais sempre existiram e o que os filmes exibidos em Gramado tentam nos dizer é que não se trata só disso, mas de uma disfuncionalidade emocional, o não ter no que acreditar. Em análise isolada, cada filme apontaria para uma problematização diferente envolvendo esses jovens, mas vistos agrupadamente formam um quadro rico para se pensar o momento.

Antes de entrar nos longas, cabe ressaltar os personagens jovens de pelo menos três curtas da mostra nacional: “Enquanto o sangue coloria a noite, eu olhava as estrelas”, de Felipe Arrojo Poroger (SP), “Herói”, de João Pedone e Pedro Figueiredo (SP), e “O Corpo”, de Lucas Cassales (RS). O primeiro traz o bullyng violento sofrido pelo adolescente protagonista, a ausência da mãe e a presença soturna do pai (um militar em cadeira de rodas que não consegue falar, mas consegue dar ordens). A solução final para o martírio que o garoto enfrenta na escola é impactante, radical e alimenta profundas discussões sobre a adolescência e o significado de “proteção”. Herói apresenta um adolescente com “capacidade mental reduzida”, conforme a sinopse, mas que a despeito disto parece viver só; pai e mãe inexistentes.

Encontra na emprega doméstica a bondade para aplacar seus instintos, mas não sem trauma. “O Corpo”, mesmo investindo no gênero apenas como suporte para suas metáforas, ancora-se com eficácia na estética do realismo para flagrar o olhar assustado de um menino da Serra Gaúcha (Rafael Henzel). O horror, o diferente, é espiado como algo que lhe espera, no qual ainda não precisa participar, mas do qual não poderá fugir.

O longa “O Último Cine Drive-In” (DF), de Iberê Carvalho, mostra o protagonista Marlombrando (Breno Nina) como um operário que busca pelo pai. A função do pai, que há muitos anos não via, era fazer uma sessão de cinema especial para a mãe doente, como um último desejo. De todos, este é o personagem neste agrupamento temático que mais chances tem de um desfecho feliz, pois há uma amorosidade permeando seus objetivos. Em “Ausência” (SP), de Chico Teixeira, o protagonista é abandonado pelo pai e pela mãe. E, talvez, graças a um caráter e a uma dignidade que o distinguem, escolhe o caminho da superação. Ambos filmes equacionam bem os procedimentos do cinema comercial com os do cinema de arte. Com isto queremos dizer que embora o extravio de suas vidas marcadas pelo abandono, apostam em catarses positivas, transferindo ao espectador uma réstia de esperança.

Diferente de “Ponto Zero”, de José Pedro Goulart (RS), cujo protagonista é vítima de um pai no limite da caricatura enquanto tirano e enquanto tolo. Para piorar, Ênio (Sandro Aliprandini) tem na mãe (Patrícia Selonk) não o apoio, mas o combustível para o seu desequilíbrio mental. Conjugando forma e conteúdo com ímpeto, Ponto Zero propõe um mergulho pesado na mente do garoto. O som ao redor deste personagem o leva num crescente para delírios de horror. Não bastassem os demônios que povoam a vida dos adolescentes, a família de Ênio certamente não contribui para a sua saúde de espírito.

O “Outro Lado do Paraíso” (DF), de André Ristum, é narrado por Nando (Davi Galdeano). O fundo histórico-político do filme é a construção de Brasília, onde a família de Nando vai morar vinda de Minas Gerais. Em direção oposta a Ponto Zero, O Outro Lado do Paraíso ambiciona grandes bilheterias e poderá vir a encontrar seu público entre os espectadores pouco treinados em narrativas mais sofisticadas. Acredita no que se chamava de “cinemão”, mas em termos de objeto coloca na tela algo muito caro à história do País, que é os primórdios de Brasília e o golpe militar. A violência embutida ali, aos olhos do menino de 12 anos, só fica amortecida pelo caráter romanesco do filme, mas as entrelinhas estão lá. O pai (Eduardo Moscovis), envolvido nos movimentos sindicais é preso e o que resta ao menino são os livros e os sonhos.

Outro longa na competição, “O Fim e os Meios” (RJ), de Murilo Salles, se passa na Brasília atual. O ambiente é o do Senado, e suas práticas pouco louváveis de fazer política permeiam a história de um casal em decomposição. As crianças não são as protagonistas, mas uma gravidez acidental desencadeia o enredo. O modo como a criança é filmada, sempre aos cuidados de uma babá, sinaliza a adolescente que está por vir. O pai some, a mãe surta e a criança fica à deriva.

Talvez o filme em que o personagem jovem mais reflita esta crise familiar é o de “Que Horas ela Volta?” (SP), de Anna Muylaet. Val (Regina Casé) abandona a filha em Pernambuco para trabalhar em São Paulo. O tempo passa, a filha vem morar com ela e nem a chama de mãe. Ela é apenas “Val”. Em contrapartida, é Val, como empregada doméstica, quem cuida do garoto da família que a emprega (Michel Joelsas), que por sua vez sofre abandono afetivo dos pais. E o neto que Val nem sabe que tinha, será mais um aos cuidados da avó, já que não tem pai e a mãe terá que estudar e trabalhar.

Assim como em outras duas referências, “O Som ao Redor” (Kléber Mendonça Filho, 2012) e “Casa Grande” (Fellipe Barbosa,2014), filhos de classe média encontram afago e compreensão nas relações com os empregados. Essa acomodação humanista proposta pelos filmes pode não ser documental, mas o fato de manifestar uma espécie de desejo dos realizadores, já é um sinal. Naturalmente, tudo é mais complexo e as contradições e paradoxos lançados nos próprios filmes aqui citados deveriam ser melhor examinadas. Por ora, fica este recorte da programação do Festival, envolto em alguma elucubrações. Como a que podemos imaginar se tivéssemos nas barbas do EI, alguns desses personagens mais carentes seriam recrutados facilmente, pois lhes falta um objetivo de vida, amor próprio, uma família atenta e amorosa. Adolescentes em abandono são alvos fáceis de qualquer promessa de valorização, de autoestima. Encaixar-se numa sociedade onde o consumo e as práticas violentas e corruptas são os valores de parâmetro, é bastante complicado. Seja nos corredores do Senado, seja entre vacas e galinhas no Rio Grande do Sul.

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