Um festival de polaridades e novos atores

“Big Jato”, de Cláudio Assis

Por Neusa Barbosa*

O 48º Festival de Brasília rodou em torno de dois eixos principais – os esperados longas “Big Jato”, de Cláudio Assis, e “Para minha amada morta”, de Aly Muritiba.

Os dois filmes concretizaram duas polaridades. De um lado, a relativa suavização do veterano Cláudio Assis, ao partir para uma história que retrata uma autobiografia alheia (de Xico Sá) e inclui no elenco diversos jovens e crianças – revelando novos talentos como o protagonista Rafael Nicácio (já visto no curta “Sem coração”) e os intérpretes de seus irmãos na tela, Vertin Moura e Artur Maia. É surpreendente como Assis, um diretor conhecido pela potência destemperada de seu verbo, no cinema e na vida, encaminha com bastante doçura este quase road movie em torno de um caminhão que revira o esterco mal-assumido do mundo.

Ator em permanente estado de graça, Matheus Nachtergaele encarna, em seus dois papeis, uma outra dualidade do filme – o arcaísmo bruto de Xico pai, o motorista do caminhão que expressa o machismo e a brutalidade de pai-patrão, e a transgressividade derramada e pop de seu irmão Nelson, o radialista que inspira Xiquinho (Nicácio) a desbravar o mundo além de Peixe de Pedra, cidadezinha que encontra a metáfora perfeita nos peixes fossilizados de sua paisagem mineral, que fornecem um dos motes para a direção de arte inspirada de Ananias de Caldas e Karen Araújo.

Se de machismo muito se falou neste festival, em parte pela discretíssima presença de diretoras nas seleções principais, por outra, pelas vaias dedicadas a Cláudio Assis pelo já por demais execrado episódio de um debate em Recife, na tela a atriz Marcélia Cartaxo representou um sopro de ar fresco com sua matriarca a princípio quase megera, raivosa e impotente, mas crescendo como mulher que impõe seu jogo e sai da sombra do marido. Marcélia é, ao lado de Matheus, uma das atrizes mais iluminadas do país, uma quase Anna Magnani sertaneja – que o diga sua atuação em “História da eternidade”, este pequeno clássico agreste pouco visto de outro cineasta pernambucano, Camilo Cavalcanti.

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Para minha amada morta

O outro polo do festival ficou por conta do estreante em longas Aly Muritiba, que deu uma aula de controle de ritmo no drama “Para minha amada morta” – aliás, o mesmo se repetiu no seu curta, “Tarântula”, codirigido por Marja Calafange e que competia na seção desse formato. Depois de vários curtas premiados, alguns ambientados no ambiente carcerário (como “Pátio”, 2013), Muritiba explorou duelos emocionais masculinos em torno da paixão, do sentimento de posse e do ciúme.

Pareceu digno de um western esse confronto às vezes mudo mas sempre tenso, entre o protagonista, Fernando (Fernando Alves Pinto, no melhor papel de sua carreira até aqui), e Salvador (Lourinelson Vladimir, premiado como coadjuvante), em cenas magnificamente escritas e desenhadas, em que se joga com a expectativa de quem assiste, num fio esticado ao máximo, que sugere muito e acirra a imaginação. Foi um primor de composição num universo muito estudado e rigoroso, em que a presença feminina, ainda que lateral, foi da mesma forma bem delineada pelas atrizes Mayana Neiva, como a mulher do rival, sua filha (a premiada novata Giuly Biancato, outra bela revelação da nova geração deste festival) e mesmo Michele Puci, a mulher morta, que surge apenas nas cenas do vídeo que incendeia a história.

Outros longas

“Fome”, do gaúcho radicado em São Paulo Cristiano Burlan (“Mataram meu irmão”), inscreveu em sua feitura a fragmentação de uma produção feita no peito e na raça, detalhe que traduz a filosofia guerrilheira de trabalho deste diretor. Fotografado num muito lógico P&B, o filme tem em Jean-Claude Bernardet a sua força e sua fraqueza. Se é verdade que a presença deste que é um dos mais respeitados críticos e estudiosos do cinema brasileiro, agora na pele de ator, incendeia algumas sequências de uma poderosa presença humana e bruta poesia – como quando empurra penosamente seu carrinho nas ruas, quando dança em câmera lenta e na impactante cena final –, não é menos real que sua persona impregna o filme de um modo que subverte sua própria proposta em vários outros momentos, até o da curiosa discussão sobre cinema com o crítico Francis Vogner dos Reis.

Se não deu conta de tudo a que se propõe – realismo mágico em cinema é mesmo um desafio -, a produção “A Família Dionti”, de outro estreante em ficção, Alan Minas (RJ), ao menos fincou pé numa estrada que precisa ser mais explorada pelo cinema nacional, a dos filmes infanto-juvenis. E, assim como o filme de Cláudio Assis, revelou um formidável trio de atores adolescentes: Murilo Quirino, Anna Luiza Paes Marques e Bernardo Santos.

Curtas

Se, de modo geral, não foi tão marcante, a seleção de curtas teve ao menos o mérito de alinhar filmes de feitura muito elaborada – caso do citado “Tarântula”,  “O Corpo”, de Lucas Cassales (RS), “O Sinaleiro”, de Daniel Augusto (SP) e “História de uma pena”, de Leonardo Mouramateus (CE). “Rapsódia para o homem negro”, de Gabriel Martins (MG), trouxe temas da cultura negra, como o candomblé, para o centro de uma discussão sobre a violência contra moradores de ocupações, fenômeno que pipoca em vários estados do Brasil. O documentário “Afonso é uma brasa”, de Naji Sidki e James Gama (DF), resgatou com brio e humor a figura do bombeiro-cineasta que fez de seu trabalho uma marca registrada de Brasília, Afonso Brazza. “A outra margem” (MS) revelou uma nova diretora, Nathália Tereza, que não teve medo de se arriscar num mergulho na psicologia masculina.

“Quintal”, do mineiro André Novais Oliveira, generosamente premiado, mostrou-se, numa terceira visita, ainda mais rico. Cada vez que se assiste, o filme só melhora, percebendo-se mais a multiplicidade de detalhes e enfoques que foi capaz de enfeixar.

* Neusa Barbosa é editora do Cineweb.

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