Kiarostami e Juliette Binoche: encontro marcado

Binoche e Shimel em cena de "Cópia Fiel" (2010)

Binoche e Shimel em cena de “Cópia Fiel” (2010)

Carlos Helí de Almeida*

“Cópia fiel” (2010) foi rodado durante o verão italiano de 2009 e ganhou première no Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio de interpretação feminina. Mas essa primeira colaboração entre Abbas Kiarostami e a atriz Juliette Binoche começou a se esboçar 15 anos atrás, quando a francesa ganhou o Oscar de melhor coadjuvante por seu desempenho em “O paciente inglês” (1996), de Anthony Minghella.

“Na época, um jornalista francês perguntou se ela queria ir para Hollywood, e Juliette respondeu que não, que preferiria trabalhar com Abbas Kiarostami. Fiquei surpreso com a resposta, sequer sabia que ela conhecia meus filmes”, disse, por trás dos indefectíveis óculos escuros, o autor de “Através das oliveiras” (1994) durante o festival francês. “O que me deixou mais impressionado ainda foi a atitude dela. Juliette não parecia buscar valores do mercado de hoje. Na verdade, sugeria dar um passo atrás, ou mesmo para o lado, à procura de um cinema mais modesto e pessoal.”

A aproximação entre os dois aconteceu lentamente, já que o realizador e a intérprete transitavam por universos cinematográficos distintos. A admiração mútua, no entanto, foi alimentada ao longo dos anos por ocasionais encontros em eventos cinematográficos.

“Tudo parecia impossível na época em que afirmei que gostaria de trabalhar com Abbas, porque ele trabalhava somente no Irã, com atores não profissionais, e na língua dele, o farsi. Eu não tinha os três requisitos em mim”, ponderou Juliette, cujo currículo já foi rubricado por diretores como Michael Haneke, John Boorman e Krzysztof Kieslowski, entre outros. “Quando finalmente o conheci e tive a oportunidade de dizer-lhe isso pessoalmente, Abbas nunca disse não, mas também nunca disse sim. Por duas vezes chegou a dizer: ‘Venha a Teerã!’.”

Numa dessas visitas à capital iraniana, Juliette filmou uma pequena participação em Shirin (2008). A língua não foi um empecilho: o filme mostra os rostos de uma plateia de mulheres reagindo à encenação de um poema persa do século 12, que permanece invisível aos olhos do espectador. Juliette é a única estrangeira no meio do elenco, formado por 114 atrizes de teatro e de cinema do Irã, escaladas pelo diretor.

“Diria que a participação de Juliette em Shirin foi uma gentileza entre amigos, já que ela estava a passeio quando veio me visitar em Teerã. Como não se tratava de uma filmagem contínua, e feita no porão lá de casa, ela se entusiasmou pela movimentação de mulheres e se ofereceu para ocupar uma das cadeiras da plateia cenográfica e interpretar para a câmera”, contou Kiarostami.

Foi naquela ocasião que o projeto de “Cópia fiel” começou a tomar forma. O roteiro do filme, o primeiro do diretor rodado fora do Irã e não falado em sua língua natal, foi desenvolvido especialmente para acomodar Juliette. “Um dia, Abbas me contou que, durante uma viagem à Itália, uma mulher se aproximou dele e o chamou para conhecer um velho vilarejo da região e, durante o passeio, o tratou como se ele fosse o marido dela. Fiquei hipnotizada pela história”, relembrou a atriz de 47 anos. “Ao final, Abbas perguntou se eu acreditava que aquilo pudesse ter acontecido. Respondi que sim, mas ele retrucou que nada era verdade. Foi aí que percebi que ele estava querendo filmar essa minha reação de encantamento”.

Mundialmente conhecido por suas tramas realistas, que oferecem uma visão poética da sociedade iraniana, Kiarostami constrói aqui o seu filme menos político (no sentido estrito do termo) e mais digerível – mas não o menos complexo. O ponto de partida de Cópia fiel é o encontro entre a dona de um antiquário (Juliette), uma francesa cujo nome nunca é pronunciado, e um escritor britânico (o barítono William Shimell), que chega a uma cidadeda Toscana (Itália) para uma palestra sobre o impacto do olhar na avaliação da autenticidade de uma obra de arte. Ela o convida para um passeio pela região, durante o qual se comportam como um casal que se reencontra depois de uma longa separação.

Os dois atores estão o tempo inteiro em cena, mas é a personagem de Juliette quem guia a ação, desdobrando-se ainda entre o inglês, o francês e o italiano. Algumas das tomadas, filmadas em longos planos-sequência, como recordou a atriz, podiam ter até 10 páginas de diálogos.

“Para minha sorte, eu tinha o fim de semana para decorar as minhas falas”, ironizou Juliette, que não resistiu à tentação de sair colocando cacos no texto. “Estava tudo escrito, mas acrescentei algumas coisas em determinados trechos, porque não consigo não improvisar. Não dava, por exemplo, para não reclamar da senhora que não desvia do carro que estou dirigindo. Fiquei com receio de que Abbas fosse cortar esses tipos de improviso, mas acho que ele confiou na espontaneidade deles.”

Ao criar uma parábola com o conceito de original e cópia, no universo das artes, com o real e a representação, na vida, Kiarostami constrói uma das mais intrigantes histórias de amor dos últimos tempos. Quem encontrar paralelos com “Viagem à Itália” (1953), de Roberto Rossellini (1906-1977), sobre um casal em crise que descobre um novo sentido para suas vidas entre paisagens italianas, não estará vendo coisas.

“Tenho que admitir que devo ter recebido influência de Rosselini neste filme, mesmo inconscientemente. Viagem à Itália é um dos meus preferidos, da época em que eu era apenas um cinéfilo e descobri o neorrealismo italiano”, afirmou Kiarostami.

Saindo do Irã – O maior cineasta iraniano de seu tempo é, ironicamente, o menos conhecido em seu próprio país. Dono de inúmeros prêmios conquistados em festivais internacionais, Kiarostami ainda é uma das maiores vítimas do regime linha dura do presidente Mahmoud Ahmadinejad, cuja reeleição foi contestada por parte da população, reação até hoje reprimida pelo governo.

“Há 12 anos que um filme meu não passa no Irã”, lamentou o cineasta durante o Festival de Marrakech, no qual ocupou o cargo de presidente do júri oficial. Cópia fiel deve ter o mesmo destino. É o preço que o cineasta paga por sua independência profissional. Confira trechos da entrevista:

Por que Juliette Binoche para o papel principal?
Na verdade, escrevi o roteiro especialmente para ela. Tempos atrás, Juliette veio me visitar em Teerã, depois de filmar sua participação em “Shirin” (2008, sobre mulheres iranianas). Na ocasião, contei-lhe essa história de amor, que acontecera de verdade, na Itália, e ela comentou que daria um ótimo filme. Comecei a adaptar aquela história em forma de roteiro, tendo ela em mente. Respeitei a geografia em que ela ocorre.

O senhor foi criticado pelo governo do seu país por ter escolhido uma atriz francesa. Como lida com essa pressão constante por parte das autoridades iranianas?
“Gosto de cereja” (1997) foi o último filme meu exibido nos cinemas do Irã. Todos os filmes feitos depois dele foram banidos das salas iranianas. Isso não acontece apenas comigo, mas com todos aqueles que fazem cinema independente no país. Como o governo não tem controle sobre o financiamento ou o conteúdo desses filmes, não permite que eles cheguem ao circuito. Minha sorte é que consigo fazer meus filmes sem precisar do dinheiro do Estado, busco ajuda de produtoras estrangeiras, como a MK2 francesa, com quem fiz “Cópia fiel”.

Mas seus filmes não são propriamente políticos…
A censura tem pouco a ver com o conteúdo do filme. Alguns deles lidam com aspectos da vida social no Irã, mas muitos outros, sem qualquer fundo social ou político, têm sido banidos do país. Volto a frisar: o problema não é o conteúdo ou o tema, mas a forma como os filmes são feitos, sem o controle direto do Estado. Graças às tecnologias digitais, com câmeras mais leves e baratas, muitos jovens cineastas passaram a fazer filmes sem pedir depender do governo.

Os filmes independentes de seu país conseguem chegar ao circuito de festivais internacionais. O senhor não enxerga na acolhida estrangeira como uma forma eficiente de defesa da livre circulação dos filmes iranianos?
É difícil dizer o que pode ser eficiente ou não em relação ao governo iraniano. Duvido muito até que possa causar alguma reação de quem está no poder. Mas o apoio estrangeiro serve como um sinal de conforto, sim, para os intelectuais iranianos, para que eles sintam que outros se preocupam com eles e a situação do país. O governo, no entanto, mostra total indiferença ao que os países do Ocidente pensam ou defendem.

Hana Makhmalbaf, um desses novos cineastas, exibiu no Festival de Veneza Green days, ambientado durante os confrontos que se seguiram ao resultado das últimas eleições presidenciais. O senhor não se vê fazendo filmes sobre a situação política do Irã?
Faço distinção entre o impacto da revolução (política e social) no meu dia a dia e o meu trabalho. Incidentes ou crises só poderão influenciar minha obra a longo prazo. Sempre evitei reações emotivas em meus filmes. Acho que a arte é um campo em que exige uma certa distância temporal de um fato histórico para usá-lo de forma apropriada. No mais, separo o que sinto como cidadão iraniano do que faço para ganhar a vida. Não seria capaz de fazer filmes com esse tipo de aspecto jornalístico.

Então, como cidadão iraniano, como o senhor vê a situação atual do país?
Sinto que estamos vivendo um estado permanente de insegurança social, política e econômica, resultado direto das atitudes e escolhas feitas pelo governo ao longo dos anos. O principal dever de políticos e governantes é oferecer segurança aos cidadãos, mas não me sinto seguro em meu país. Aceito o fato de meus filmes serem banidos, porque posso encontrar outras soluções para sobreviver em minha profissão, mas quando se trata de minha vida, minha integridade física, é mais difícil ver uma saída.

* jornalista e crítico de cinema; entrevistas publicadas no Jornal do Brasil em 18 de março de 2011, quando da estreia de “Cópia fiel” no Brasil, e em 9 de janeiro de 2010, durante o Festival de Marrakech, quando Kiarostami havia acabado de rodar o filme protagonizado por Juliette Binoche.

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