“Temos a arte para não morrer da verdade”

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Cecilia Barroso*

A citação de Nietzsche do título seria uma boa frase para traduzir o clima da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Mesmo com uma seleção de primeira qualidade, com filmes que se destacaram em todo o mundo e no Brasil, e mais algumas estreias; muitas descobertas, confirmações e surpresas, nem sempre positivas, o cinema teve que dividir – e por vezes perder – o seu espaço para o momento político e a eleição que se aproximava.

As conversas entre sessões traduziam a ansiedade pelo pleito que se aproximava e explicitavam o medo pelas denúncias de posições extremistas que passaram a acontecer depois do resultado do primeiro turno. O sentimento estava dentro da sala de cinema também, fazendo identificações com aquilo que se via, por mais distante da realidade brasileira que estivesse a produção vista, seja em frases, cenas, sequências e até filmes inteiros.

Foram dias de ansiedade, mas de muito cinema. Algo que chegava como uma fuga e, ao mesmo tempo, um chamado. A arte com suas muitas maneiras de trazer histórias próprias e fazer com que se conectem com as histórias e a experiência de cada um dos que a aprecia. Ao mesmo tempo em que esconde e expõe a verdade, em imagens e som, traz o distanciamento e a exclusividade. Histórias únicas que, pela arte, poderiam virar tantas outras.

Em meio a várias línguas e linguagens, durações e janelas, duas estreias na direção chamam a atenção: os documentários Humberto Mauro, de André Di Mauro, e Filme Paisagem: Um Olhar Sobre Roberto Burle Marx, de João Vargas Penna. As duas biografias trazem seus retratos reconstruídos de outros momentos de ruptura democrática e suas consequências, indo do moralismo ao desmatamento, do descaso do governo à esperança para futuras gerações.

Embora a política ali esteja, nem sempre tão assumida pelas obras, e chame a atenção pela sensibilidade ao tema de quem as assiste, é na estética que os dois filmes se destacam. A forma como ambos recriam as personalidades que homenageiam partindo delas próprias, conduzindo as memórias em palavras ou imagens.

Em Humberto Mauro há o abandono de material de depoimentos coletados para compor um filme com várias imagens do pioneiro do cinema, mas não apenas dele. Nesta reconstrução, a arte constrói-se sobre a arte anterior, reafirma os sentimentos das imagens primeiras e instiga outros com sua colagem.

Ousado em seu processo, André Di Mauro não se preocupa em muitas explicações e entende que as imagens de Humberto Mauro são as melhores para ilustrar a história que o próprio tio-avô conta. Como bom autor, escolhe seu fluxo e se intromete com outras imagens para contextualizar ou destacar pontos.

Um pouco mais convencional, Filme Paisagem vai buscar nas memórias de Burle Marx, narradas em primeira pessoa por Amir Haddad, seu fio condutor. Também bastante visual, o longa mescla imagens encenadas, de arquivos particulares e tomadas das obras de arte criadas pelo paisagista. Essa mistura do novo com o antigo, do natural com o construído, faz com que se chegue muito perto de uma espécie de reconstrução audiovisual de um jardins do artista.

Se não há como usar a arte própria do biografado na solução audiovisual do filme, como em Humberto Mauro, busca-se então inspiração em sua forma e constituição. Mais do que expor peças prontas, o filme de Penna entende o pensamento de seu homenageado e, com um mosaico, se encontra no equilíbrio entre elementos diversos.

Em suas estreias, tanto ele quanto Di Mauro encontram suas maneiras de fazer arte da arte que de alguma maneira os tocou, seja por meio da reciclagem das imagens ou pela inspiração que a obra traz. O buscar artístico, para além do imagético, é afetivo e afetuoso, impressionado e impressionante, e sobrevive na memória de quem se entrega à experiência.

Naqueles dias tensos em uma São Paulo fria, ambos os filmes deixam suas marcas. Não sem o suscitar o que há de política em cada um deles e, talvez, até sendo cobrados por não oferecerem tudo aquilo que poderiam, em uma busca dos que estão diante da tela por mais verdade do que arte. Porém, está tudo ali, em manifestação e até mesmo em silêncio, amenizando e estetizando essa verdade – inescapável – sem deixar de lidar, de alguma maneira, com ela.

*Cecilia Barroso foi membro do Júri Abraccine na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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