Dossiê 43ª Mostra SP: Livro Paulínia

Maria do Rosário Caetano
Texto originalmente publicado na Revista de Cinema.

Por que um polo de cinema montado em sólido município paulista – Paulínia, a 119 km da capital do Estado – durou menos de dez anos? Por que, ao definhar, levou junto uma escola de cinema e um festival, sua mais vistosa vitrine? Por que o complexo audiovisual montado na cidade-sede de estratégica refinaria de petróleo repetiu o fracasso de ciclos sucessivos (Cataguases, Recife, Campinas, São Bernardo do Campo, Vitória, Brasília) vividos em diversos pontos do território brasileiro?

O pesquisador e crítico de cinema João Nunes, o maior conhecedor da frustrada experiência paulinense, busca respostas para estas questões no livro “Paulínia – Uma História de Cinema”, que será lançado dia 22 deste mês, no quadro de atividades da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E, depois, dia 28, em Campinas.

Além de analisar o que se passou em Paulínia, desde a inauguração do Theatro (e Cinema) Municipal, com sua colunas decalcadas da Grécia clássica, João Nunes fornece ao leitor sólidos dados. A Atlântida cinematográfica, fonte geradora das populares chanchadas, encerrou seu círculo virtuoso com 66 filmes. A Vera Cruz paulista, voltada a um “cinema de qualidade”, realizou 22 filmes em sua fase áurea. Já Paulínia, além de seis edições de seu badalado festival, de centenas de cursos promovidos em sua Escola Magia do Cinema e da montagem de estúdios de ponta (em especial, o dedicado a filmes de animação), coproduziu 45 filmes. Participou, ainda, do lançamento, com infraestrutura e apoio financeiro, de “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, maior bilheteria da história do cinema brasileiro (11,2 milhões de espectadores).

Na abertura de seu compacto (216 páginas) e potente “Paulínia – Uma História de Cinema”, João Nunes confessa sua incredulidade ao ver nascer, num dia do ano 2005, “um belíssimo teatro, que sediaria seis festivais de cinema, e a implantação de quatro estúdios, que abrigariam 45 filmes, entre eles, sucessos como ‘Chico Xavier’, de Daniel Filho (3,4 milhões de ingressos), e ‘O Palhaço’ (1,5 milhão)”. Mais incrédulo ficou, quando “nove anos depois, em 2014”, viu tudo se desmanchar no ar.

O Theatro Municipal continua de pé, imponente com suas colunas gregas (o relato de João Nunes sobre as tensas conversas do então prefeito Edson Moura, pai da obra monumental, com o arquiteto Ismael Solé são muito reveladoras). Porém, o festival, a escola e os estúdios sofreram a mais absurda das interrupções. A continuar desprezado pelos prefeitos que sucederam Edson Moura (exceção para seu filho Edson Moura Júnior), o polo, implantado em área de 12,5 mil metros quadrados, transformar-se-á em triste ruína. Ou seja, em mais um vultoso desperdício de recursos públicos.

O pesquisador campineiro descreve o que restou do outrora ousado complexo audiovisual, erguido numa pacata cidade de pouco mais de 100 mil habitantes: “O Polo de Cinema de Paulínia, hoje, é aquele encontrado em visita realizada em fevereiro de 2018 – teatro sujo e buracos no teto, estúdios fechados e vidros quebrados, escola de cinema vazia, placas indicativas enferrujadas e equipamentos desaparecidos”.

João Nunes lembra, então, a mais recorrente reivindicação dos convidados (artistas, técnicos, jornalistas) do festival nos seus anos áureos (e do cobiçado troféu Menina de Ouro): que houvesse um hotel, próximo ao Complexo Audiovisual paulinense, de forma que, além de conforto, se ganhasse tempo.

Quando o polo foi instalado, Paulínia só contava com um hotel de serviço, incapaz de abrigar (em quantidade e qualidade) os convidados nacionais e os internacionais que começavam a chegar (caso de Danny Glover, Jacqueline Bisset, Abel Ferrara, Michael Madsen e Franco Nero, este como ator de um filme de Lúcia Murat).

A solução encontrada foi hospedar os artistas em Campinas (1,2 milhão de habitantes), uma das três maiores cidades paulistas e, por isto, dotada de ótima infraestrutura. Paulínia nasceu como distrito de Campinas. Emancipou-se nos governos militares (1964-1984), que a escolheram como sede de estratégica refinaria de petróleo, a Replan, que ajudaria no abastecimento de São Paulo, capital econômica e financeira do país.

Hoje, Paulínia integra a rica RMC (Região Metropolitana de Campinas, que congrega 20 municípios). O trânsito de carros, caminhões e ônibus é dos mais pesados. Deslocar os convidados, de Campinas para Paulínia, no horário do rush, era sinônimo de enorme perda de tempo. Pois o hotel paulinense (da Rede Vitória) foi construído e inaugurado em março de 2015, com 172 quartos e muito conforto. Hoje, porém, não há artistas, produtores, técnicos e alunos para hospedar. O hotel funciona, mas com outra clientela.

Como João Nunes participou ativamente da história do polo e do festival, seja como repórter ou como integrante de comissões de seleção ou de premiação, ele entendeu ser melhor construir sua narrativa em primeira pessoa. “Eu me fiz personagem de um episódio tão rico quanto breve” – pontua –, “ao me alegrar com a chegada do polo e do festival na mesma sintonia em que me entristeci quando as luzes de empreendimento tão singular se apagaram”.

Com fina ironia, o pesquisador confessa: “este é um livro que eu não queria ter escrito”. Mas ele o escreveu por entender que “reflete a realidade do cinema brasileiro tristemente acometido pelo distúrbio DMM (descontinuidade mórbida múltipla)”.

A paixão pelo experimento desenvolvido ao longo dos nove anos de duração do Polo-Escola-e-Festival, não impediu João Nunes de exercitar sua veia crítica e dar ênfase aos erros que foram se acumulando. Erros políticos, em especial. Foram muitos os desmandos no Executivo Municipal, em especial as brigas entre prefeitos que se sucediam. Muitas destas brigas foram transformadas em grandes (e demoradas) batalhas judiciais.

“Paulínia – Uma História de Cinema” traz anexos com todas as produções apoiadas pelo polo audiovisual paulinense e todos os filmes que competiram (e foram, ou não, premiados) no badalado festival, comandado pelo crítico Rubens Ewald Filho (1945-2019). Traz, também, prefácio do jornalista e crítico Paulo Henrique Silva e posfácio do cineasta e professor universitário Fernando Severo.

Paulo Henrique define João Nunes como “testemunha privilegiada do nascimento e da falência do Festival de Paulínia”. E lembra que, “relutante no início, pesou certamente na decisão de contar essa história o fato de ter acompanhado (como repórter e crítico do jornal ‘Correio Popular’, de Campinas) não só os oito dias de programação como tudo aquilo que girava em torno dela”.

Já na abertura de seu texto, Fernando Severo, diretor de vários curtas (destaque para “O Mundo Perdido do Kózak” e “Visionários”) e de dois longas-metragens, escreve: “A primeira sensação que fica depois da leitura desta obra, tão importante para a historiografia do cinema brasileiro, é de perplexidade”. Como – se pergunta – “um projeto de tal magnitude e complexidade como a implantação de um polo de produção cinematográfica e de um festival de cinema pode ter sido assentado sobre premissas e fundamentações operacionais tão frágeis?”

Depois de lembrar a matriz hollywoodiana do projeto do município paulista, o professor afirma: “Pela amplitude da abordagem e consistência dos dados levantados, ‘Paulínia – Uma História de Cinema’ passa a ser, a partir de agora, uma obra referencial para a definição das políticas cinematográficas que, tempos em tempos, surgem em diferentes regiões do país”. Quando da criação do Polo de Paulínia, “já havia tentativas mal-sucedidas em número suficiente para desaconselhar a adoção de um modelo de produção que não vingara em pelo menos três Estados, Espírito Santo, Distrito Federal e Ceará, que ainda nos anos 1990 investiram em polos cinematográficos que fracassaram apesar do investimentos de recursos vultosos”.

Por fim, Fernando Severo, concordando com João Nunes, que define a fértil experiência de produção audiovisual da Recife contemporânea como “vitoriosa, vigorosa e inventiva”, reafirma este paradigma digno de ser copiado: “Na contramão desse processo (o dos polos paulinense, capixaba, candango e cearense), pode (e deve) ser analisada a política muito bem sucedida adotada por Pernambuco que, através de editais regulares de seleção pública em diversas áreas artísticas, dentre as quais o audiovisual, acabou se consolidando como uma das maiores forças criativas da cultura brasileira”.

 

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