As obras de Manoel

Capa do livro "Manoel de Oliveira" (Editora Cosac Naify). Foto: Jean-Paul Toraille (Manoel de Oliveira no Mar Morto, durante as filmagens de "O Espelho Mágico", 2005)

Capa do livro “Manoel de Oliveira” (Editora Cosac Naify). Foto: Jean-Paul Toraille (Manoel de Oliveira no Mar Morto, durante as filmagens de “O Espelho Mágico”, 2005)

Um Filme Falado

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge (Cineweb, SP)

Manoel de Oliveira não está absolutamente preocupado com os impasses globalizados vividos nestes tempos entre a previdência do Estado e os candidatos à beira da aposentadoria. Aliás, esta é a última coisa que deve passar pela cabeça deste garoto-prodígio que teima, quase centenário, em ser precoce às avessas em seu “Um Filme Falado”.

O que fez desta vez o mestre? Teórica e praticamente o mesmo. Tudo como sempre, mas diferente. Humanista descarado, Oliveira é sempre um acadêmico formal, quase estático na sua relação entre cinema e teatro. Pois agora acrescente-se: ao descaramento de um autor acadêmico e formalista foi incorporado o atrevimento. Sim, porque a seqüência final de “Um Filme Falado” é de uma ousadia e uma transgressividade desconcertantes.

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vale abraao

Vale Abrãao
Por Ailton Monteiro (CE)

A beleza de Leonor Silveira em “Vale Abraão” (1993) é algo de indescritível. Impossível não se apaixonar por ela, por seus olhos que parecem trazer a imensidão do mar, por seu sorriso levemente malicioso, por sua voz macia. E sua personagem, a Ema, do romance homônimo, de Agustina Bessa-Luís, inspirado em “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, tem até um defeito de nascença: ela manca de uma perna. Difícil, com esse detalhe, não lembrar aquele trecho de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, na qual o protagonista fica a lamentar o fato de que a moça que ele conheceu é tão bela mas é coxa. “Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”, ele se perguntava.

Mas em “Vale Abraão”, em nenhum momento esse defeito interfere no fascínio que Ema exerce sobre os homens. Talvez até contribua para torná-la ainda mais única. Sua beleza é tanta que é praticamente impossível não ficar cego em relação a seus defeitos. Incluindo defeitos de caráter. E é impressionante a escolha da personagem quando adolescente, interpretada por Cécile Sanz de Alba, muito parecida com Leonor Silveira, que aparece no auge da beleza neste filme de Manoel de Oliveira. Não à toa, ela se tornou a sua principal atriz durante os anos 1990 e 2000.

As cenas de intimidade com o marido e os amantes são muito discretas, inexistentes até. Manoel de Oliveira parece ter um espírito calcado no século XIX, com valores bem tradicionais. E isso faz com que ele prefira o não mostrar que o mostrar, que ele prefira a sugestão. A palavra é muito importante no filme. Que é praticamente todo narrado pela voz aveludada de Mário Barroso, com trechos inteiros do romance sendo recitados. Assim, há uma aproximação muito forte com a literatura. Há um prazer associado às letras e ao som de uma boa narrativa, que já havia sido observado em S”Singularidades de uma Rapariga Loira” (2009) e em “Um Filme Falado” (2003). Mas isso é ainda mais explícito em “Vale Abraão”, justamente por ter uma conexão forte com um romance português, que por sua vez é inspirado no clássico do Realismo francês de Flaubert.

O filme, com suas mais de três horas de duração, apesar de se passar nos dias atuais, passa uma sensação de anacronismo que muito provavelmente se deve ao estilo e à personalidade do diretor. Também não há, como nas demais adaptações de “Madame Bovary”, uma aproximação com a personagem. Em “Vale Abraão”, ela se mostra mais distante e enigmática, mesmo com o narrador frequentemente nos dizendo o que se passa pela sua cabeça. Por isso a dúvida que fica ao final do filme. Pois ela não sofre tanto quanto Emma Bovary.

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