Olhares ancestrais

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As (anti)narrativas de fundação, um retorno às origens das coisas e aos sonhos que nos precederam. Straub, Paradjanov, Antunes Filho e Ghatak (foto) são destaque no Festival de Curitiba

Adolfo Gomes
Há quanto tempo não ouvíamos: isto é um homem! Eis o que é uma nação…É chegado o momento de voltar às questões fundamentais. Renomear as coisas, pensar, uma vez mais, como elas se formaram e como existem ou o que são hoje. A ancestralidade é o que une os diversos olhares no 5º Festival Internacional de Cinema de Curitiba, realizado entre 8 e 15 de junho.
Evidente, é um recorte: uma possibilidade apenas, a mais promissora neste momento de distensão. Quando a análise tópica da arte, a patrulha, quer racial, política ou mercantil,  se impõem de forma hegemônica a reduzir tudo o que se cria e filma à lógica e às demandas do presente, parece ser um movimento necessário, esse em direção à natureza e à sua perenidade.
Encontramos  Ritwik Ghatak, poeta da Índia profunda, às voltas com as estruturas seculares do poder em “Estrela Encoberta pelas Nuvens” (Meghe Dhaka Tara, IND, 1960). No filme, temos um “falso deslocamento”, que põe à terra a utopia do fim do patriarcado: aqui, os homens são impotentes, fragilizados e oportunistas, mas, às mulheres só resta o sacrifício ou o vazio do modus operandi masculino. A natureza é o refúgio dos sonhos de transformação. Daí essa autêntica cosmogonia conjurada pela câmera de Ghatak. Os bosques se curvam, a terra treme, as montanhas se separam. Nada muda a despeito de tudo isso, mas a vida continua provisória e é essa constatação que nos dá esperança.
Experiência semelhante continua a nos propor Sergei Paradjanov em “A Cor da Romã” (Satya Nova, URSS, 1968). Cada plano é um universo revelado. As composições remetem à iconografia eslava e as alegorias e símbolos mais do que evocar a poesia do trovador armênio do século XVIII, Harutyun Sayatyan, perfazem um processo anterior à criação. Na origem do impulso artístico está um mundo ancestral, cuja organização precede de explicações, de uma narrativa. É algo subjacente ao nosso olhar, o primeiro olhar de encantamento antes de processarmos racionalmente o que vemos.
Mais terreno, porém não menos inaugural é “Compasso de Espera” (BRA, 1973), obra única de Antunes Filho, que se desdobra em camadas até atingir o magma do histórico preconceito racial no Brasil. Zózimo Bulbul é o anti-herói negro, dilacerado entre o afeto e a indignação. Moderníssimo na sua estrutura dramática, epifânico na sua ternura e compaixão pelos personagens, o filme de Antunes Filho nunca se deixa domar pelo programa sócio-condescendente que atribui à vítima a inocência pela exploração e ao dito opressor o fatalismo condenatório. Todos somos culpados e parte dessa realidade plena de desigualdade e injustiça que se renova através das eras.
Diante desse impasse, desse compasso reticente, convém lembrar também o que somos, o que fazemos juntos sob o signo de um território comum. O conceito de nação ainda é pertinente? Jean-Marie Straub se vale do texto de André Malraux e das imagens de Renoir para nos lembrar do aquário que nos tornamos. À montra de nossas hipocrisias e conveniências, primeiro temos os peixes no silêncio exasperante de nossas ilusões de controle e organização, depois a música a desarranjar o quadro agora anódino do real; por fim a respiração: uma bela panorâmica extraída de “A Marselhesa” (1938). Em “O Aquário e a Nação” (L’Aquarium et la nation, FRA/SUI, 2015), de Straub, a palavra restitui e conceitua, no ritmo e na entonação que só o cineasta franco-germânico sabe construir, mas nem por isso a imagem é menos contundente ou original. Ela é o vestígio permanente do que ainda podemos ser. Uma promessa. Essa é a ancestralidade do cinema.
* Adolfo Gomes (BA), é crítico, curador e presidente do júri Abraccine no 5º Olhar de Cinema de Curitiba

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