Serras da Desordem

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Neusa Barbosa*

Concluído em 2005, premiado com três troféus em Gramado em 2006 – melhor filme, direção e fotografia -, este aguardado trabalho do ítalo-brasileiro Andrea Tonacci chega ao circuito com a vocação de diluir fronteiras, reais e imaginárias.

Para começar, “Serras da Desordem” problematiza sua classificação – é documentário, ficção, as duas coisas ao mesmo tempo. Quem procurar definições muito estanques, não vai encontrar. Até porque Tonacci faz um percurso entre muitos registros do documentário, etnográfico, cinema-verdade, de arquivo, ensaístico. Ao mesmo tempo, não se nega a usar os recursos da ficção, sobretudo na reencenação das histórias que acompanha – a maior delas, a do índio awá Carapiru.

Os próprios personagens, Carapiru à frente, revivem em cena os episódios de sua tragédia, a partir do massacre de sua aldeia, no Maranhão, por malfeitores a serviço de fazendeiros, em 1978. Sozinho, o índio embrenhou-se pela floresta com seu arco e flecha e pouco mais, nu como um nativo dos tempos do Descobrimento. Sem família nem tribo, errou ao longo de mais de 2.000 km, por dez anos.

Nesse caminho, foi encontrado por um grupo de sertanejos que, apesar de não-índios, acolheram-no em sua comunidade. Mesmo sem aprender jamais além de algumas escassas palavras em português, Carapiru viveu entre eles boa parte desse tempo, até ser localizado pelos sertanistas Sydney Possuelo e Wellington Gomes Figueiredo, em 1988.

Os sertanejos acolhedores e os sertanistas também revivem partes desta incrível trajetória do índio, um awá guajá, uma das últimas nações nômades do Brasil. Nestas reencenações, entra não só a repetição pura e simples do passado, mas o seu comentário, a reflexão à luz do pensamento atual de cada um deles. Poucas vezes um filme brasileiro terá aproveitado tão bem a chance de confrontar diferentes aspectos do tema do choque cultural. Uma chance que vem, especialmente, da oportunidade de encontrar estes sertanejos, gente de origem social muito próxima à dos algozes da tribo de Carapiru. Impossível não pensar que eles também poderiam tê-lo massacrado. Afinal, ele era o intruso, vinha nu e armado, com intenção de caçar os animais da comunidade para comer.

“Serras da Desordem” coloca em foco esses vários pontos de vista, abrindo em paralelo uma discussão do modelo de desenvolvimento do País. Em 1978, ano do massacre do grupo de Carapiru, eram tempos de ditadura militar, da ideologia do Brasil Grande, do slogan “Ame-o ou deixe-o”, do chamado “progresso” a qualquer preço, da idéia de que o índio deveria ser incorporado a esse grande esforço de crescimento econômico, nem que fosse à força.

As imagens de arquivo, que mostram militares reprimindo manifestações estudantis e operárias em cidades, e também uma cena do filme “Iracema – Uma Transa Amazônica”, de Jorge Bodanzky – a quem este filme é inegavelmente aparentado -, evocam não só um comentário político do diretor como lançam elementos para uma discussão da atual expansão do agronegócio – outro modelo que não costuma ter paciência com questões ambientais e indígenas, exigindo uma rapidez que dizima florestas com uma voracidade não raro criminosa.

Cobrindo um espectro tão amplo de temas e idéias, curiosamente Serras da Desordem transcorre com serenidade. Segue, assim, o tempo do índio natural que é Carapiru, que não fala português – um detalhe eloquente deste choque entre dois mundos. Mesmo que não se entenda uma palavra do seu idioma, um tupi primitivo, o olhar dele revela sentimentos, também expostos por meio de uma linguagem corporal que aquele que se dispuser a acompanhar não tardará em compreender.

O encontro com o filho Tiramukon, um dos acasos grandiosos da vida de Carapiru, é incorporado à narrativa com uma emotividade tão despojada, tão intensa, tão antinovela, que abre caminho para outra vertente dentro deste filme caudaloso – a questão da volta, do reencontro, da reconstituição de um tecido que se quebra, de um fio que se acreditava perdido. Nesse rumo, Serras da Desordem tece uma das pontes que o unem a Eduardo Coutinho – a primeira sendo aquela problematização da fronteira documentário-ficção, de que Coutinho tratou num outro contexto no admirável Jogo de Cena. A segunda ponte, a da reconstrução de uma história fraturada, une este filme ao Coutinho não menos admirável do já clássico Cabra Marcado para Morrer (85) – em que acasos e reencontros restauram uma família em diáspora também por conta da violência política sob a ditadura militar.

O tema do retorno pertence por direito ao próprio Andrea Tonacci, cineasta que militou no Cinema Marginal, especialmente no mítico “Bang-Bang” (1970), e ficou 30 anos afastado do cinema, em outros caminhos, desde “Conversas no Maranhão” (1977) – em que também tratava de dramas de índios do Maranhão, num filme que em boa hora volta a ser exibido dentro da Retrospectiva do Documentário Experimental Brasileiro, parte do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários 2008.

* texto originalmente publicado no site Cineweb

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