Alguns paradoxos da mostra competitiva

Susana Schild*

Com perfil assumidamente experimental voltado para novos caminhos e linguagens,  o 7º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba apresentou um programa coerente com suas intenções composto por 156 títulos de 46 países. Realizada de 6 a 14 de junho, a jornada cumpriu suas intenções e mais: em busca de filmes que reflitam o universo multifacetado  contemporâneo, colocou lado a lado obras que investigam o passado – como retrospectivas históricas do mestre  francês Abel Rouche  e do menos conhecido mas impactante realizador senegalês Djibril Diop Mambéty (1945-1998). As duas retrospectivas, pelo holofote que lançam sobre o presente, merecem uma viagem nacional mais ampla.

Capa

Com várias seções, a mostra competição talvez reflita, com razoável margem de amostragem, os  múltiplos caminhos da produção ‘alternativa’ de várias partes do planeta. Para este artigo, foram destacados três recortes:

Velocidade x Lentidão

Já se tornou lugar-comum responsabilizar a tecnologia pela implacável velocidade de imagens e informações despejadas sobre  o cidadão do século XXI nos mais variados suportes. O ser humano nunca esteve tão transbordante de informações que desafiam a capacidade de absorver, trocar, elaborar uma parte mínima do que recebe Os resultados desta avalanche recebem diagnósticos de ansiedade, depressão, isolamento, solidão, vazio.. O tempo não para, já pregava Cazuza, ícone dos velhos anos 80. Ironicamente, a apreensão do tempo parece a meta de obras muito diferentes, como Boa Sorte (Good Luck, de Ben Russell), uma produção França Alemanha, e DRVO – a Árvore, de André Gil Mata, produção de Portugal.

Apesar de abordarem temas diferentes, há algumas conjunções entre as duas obras: a primeira, focaliza o trabalho de dois grupos de mineradores – na Sérvia e no Suriname. É com impressionante fotografia granulada em preto e branco, na primeira parte, e em cores na segunda, que Russell procura captar – e capturar – o olhar do espectador para a essência deste trabalho. A descida por elevador dos mineiros sérvios, por exemplo, leva alguns bons minutos, assim como a ação de escavar um túnel. Em outra sequência, os trabalhadores, um a um, apenas fixam a câmera, fazem gestos mínimos. Em outra, conversam no estilo cinema-verdade’, sem pressa. No Suriname, o ritmo já é um pouco mais célere, as cores e ritmos ocupam a tela, mas ao longo de boa parte de seus 143 minutos do documentário, a sensação é a de que ali, naquelas minas, o tempo parou.

A tentativa de transmitir o tempo ‘real’ produz resultados ambíguos. Por um lado, o espectador pode sentir-se diante de um quadro que se movimenta muito lentamente. O olhar pode ficar atento, mas é talvez o pensamento voe para outros espaços e contextos. Premiado como melhor filme experimental pela Sociedade Nacional de Críticos de Cinema de NY em 2018, Good luck alinha-se, em alguma medida,  ao cinema de contemplação/reflexão de  Andrei Tarkovsky ou Nuri Bilge Ceylan e tem seus méritos, entre eles, provocar uma reflexão sobre o tempo aprisionado nos tempos atuais.

O mesmo princípio foi adotado por André Gil Mata em A árvore, coincidentemente também dividido entre dois mundos: o primeiro, centrado em  Saravejo, com sua difícil geopolítica (similar a da Sérvia); o segundo refere-se a conflitos em Portugal. No filme, esses dois países são separados por um rio. De um lado, um ancião da ex-Iugoslávia leva pelo menos meia hora para remar e remar e remar. Através de belíssima fotografia tomada pela neblina, o espectador acompanha, quase em tempo real, imagina-se, o esforço da travessia. Ao chegar ao seu destino, o viajante encontra um menino português. Os dois refugiados trocam diálogos filosóficos.  Mas o que fica é aquele tempo, quase imutável, do velho remando.

Nos dois filmes, mais que contar ‘histórias’, as narrativas aparentemente pretendem  capturar o tempo, na contramão tanto da realidade como de boa parte da produção voltada para circuitos comerciais. A discutir.

Contemplação X Agitação

Os dois filmes brasileiros na competição apresentaram fortes contrastes. Apesar de gêneros diferentes – documentário e ficção – podem representar duas tendências de se refletir sobre realidades contemporâneas.

O primeiro, Fabiana, longa de estreia de Brunna Laboissière, tem como personagem uma mulher trans e motorista de caminhão em sua última viagem antes da aposentadoria. Por 28 dias, a diretora acompanhou a personagem em longos percursos através de estradas do país, a partir de Goiás, com ênfase na câmera subjetiva, revelando ao espectador boa parte do campo visual da motorista. A escolha é curiosa, uma vez que Fabiana é, de cara, uma grande personagem, com seu jeito franco e humor. Inserido na vertente ‘documentário contemplação’, defendida por alguns, a história de Fabiana se passa apenas no presente e vem descontextualizada de conflitos e confrontos que provavelmente sofreu no passado. Apesar de algumas revelações pessoais,  como a namorada Priscila, Fabiana parece presa no ‘real’ do hoje-agora, deixando no espectador uma vontade de ‘conhecê-la melhor’.

Sol Alegria, dos  realizadores paraibanos Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira também pega a estrada para realizar sua jornada cinematográfica, no caso, formada por um família de contornos circenses às voltas com um país em vias de ser dominado por  uma junta militar e um pastor corrupto. As referências aos anos 60/70 são fartas e evidentes, e vão de Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha a  José Celso Martinez Correa, sem esquecer a irreverência de  Pedro Almodóvar.  A preservação da liberdade se dá sob o signo da inquietação sob todos os aspectos –  da narrativa, das interpretações, da trilha sonora.  Uma indagação: como as novas gerações receberão um filme com tantas citações? A generosa plateia de Curitiba aplaudiu com entusiasmo os dois filmes. A conferir.

A INFÃNCIA ENTRE O REAL E A FANTASIA

O visto e não visto, segundo longa-metragem da realizadora Kamila Andini, da Indonésia e  Ansiosa Tradução (Nervous Translation), igualmente segundo longa da realizadora Shireen Seno, das Filipinas, abordam temas semelhantes: como crianças lidam com o doloroso desafio de perdas.   No primeiro, uma menina deve lidar com a grave doença do irmão gêmeo. Entre idas ao hospital e fugas para as matas, a menina apela para forças e criaturas simbólicas pela preservação da vida do irmão. Com ênfase no contraste ente luz e escuridão, apesar do talento envolvido, a diretora encontra dificuldades em transmitir para plateias de outras culturas o significado desta luta infantil, desempenhada com bravura.

Já Shireen Seno concretizou com brio a velha máxima ‘quanto mais regional, mais universal’. No centro da trama, a pequena Yael de oito anos e vive com sua mãe uma relação dura e distante. O pai está mais longe ainda, na Arábia Saudita, supostamente a trabalho. A falta que aquele pai faz é suprida pela repetição, à exaustão, das fitas cassete que ele envia para a mãe. Aquela repetição faz todo sentido e aos poucos fantasia e realidade misturam-se e adensam-se através de fugas para o exterior. Os dois mundos refletem-se em sensível tradução estética da casa da menina amadurecida à força e  obstinada em recuperar ausências primordiais em sua vida: a do pai ausente e a da mãe presente.

Por esses méritos, Ansiosa tradução recebeu, por unanimidade, o prêmio do júri da Abraccine, composto por Vitor Búrigo, Robledo Milani, Emanuela Siqueira, Kênia Freitas, Robledo Milani e Vitor Búrigo.

* Susana Schild foi presidente do júri Abraccine no 7º Olhar de Cinema de Curitiba.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s