Olhar de Cinema 2018 :: Uma semana de muitos olhares

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Robledo Milani*

Na verdade, foi mais do que uma semana. Ao todo, estivemos na capital paranaense por nove dias, de 06 a 14 de junho de 2018, acompanhando a sétima edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba. O evento, diferenciado no cenário cinematográfico nacional, atrai curiosos e cinéfilos de todo o país – e também do exterior. Até pela proximidade – estou em Porto Alegre – já tinha estado nele em uma ocasião anterior. Mas retornar, desta vez, teve um gosto especial. Afinal, havia sido convidado para integrar o Júri da Crítica, composto pela ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Uma missão – e uma responsabilidade – que iria guiar a minha programação durante aqueles dias tão frios – no lado de fora da sala – e, ao mesmo tempo, tão quentes – pela possibilidade de acompanhar filmes tão interessantes, diversos e absolutamente fora da curva do que estamos acostumados a nos confrontar no circuito comercial.

Composto por nove (!) mostras diferentes, nosso objetivo – meu e dos demais jurados, que comigo compartilhavam essa deliciosa tarefa – era ficar atentos aos filmes selecionados para a competitiva internacional. Um aperto no coração e uma alegria. Afinal, pela simples incompatibilidade de horários – não dá, definitivamente, para abraçar o mundo com as pernas, por mais que a gente tente – muitos títulos imperdíveis, que seriam exibidos nas seleções Foco, Novos Olhares, Outros Olhares, Mirada Paranaense ou Pequenos Olhares, por exemplo, teriam que ser deixados de lado. Era preciso ser objetivo, eliminando distrações e atento ao nosso compromisso original. Por outro lado, que satisfação imensa descobrir com tranquilidade e com cuidado redobrado cada um dos 10 longas integrantes do nosso espectro de estudo. Um mergulho privilegiado, além da possibilidade de compartilhar sentimentos, ideias e percepções nos encontros com os demais integrantes do júri.

Duas produções brasileiras estavam na nossa mira, além de obras do Chile, China, Bélgica, Filipinas, França, Portugal, Eslovênia e Indonésia. Três documentários, uma animação e seis ficções. Em comum, muitos diretores estreantes, em seus primeiros, segundos ou, no máximo, terceiros trabalhos neste formato. Títulos que chegavam até nós após terem sido premiados em prestigiados festivais internacionais estavam lado a lado com outros recém no início de suas carreiras. Contos de fada, dramas fantásticos, a realidade dos excluídos, a difícil vivência das minorias, a ingenuidade – e a inteligência – infantil: os temas, em sua maioria universais, falavam com cada um de nós de formas distintas, porém igualmente ressonantes, independente de suas origens, linguagens ou intenções. O resultado, ao menos em um único e singular aspecto, era sempre o mesmo: a magia do cinema se fazendo presente.

A tarefa assumida era estimulante, mas certamente não éramos os únicos naquela condição. E talvez essa seja a melhor característica do Olhar de Cinema; a sintonia que consegue estabelecer entre público e realizadores, entre organizadores e convidados. Todos estavam ali envolvidos por cada uma daquelas viagens proporcionadas pela fantasia da sala escura, descobrindo novos mundos, sonhos possíveis e ambições alcançadas. Um lugar onde uma feiticeira viúva pode se refugiar na Casa Lobo, não sem antes passar pela floricultura a caminho da árvore ao redor da qual os homens jogam, em um nítido sinal de boa sorte que só pode ser compartilhado por Fabiana e aqueles que, como ela, sabem lidar com o visto e o não visto, em uma ansiosa tradução em que nada mais resta, a não ser Sol Alegria!

O processo de avaliação de um filme não se dá apenas durante o desenrolar da sua projeção. Pelo contrário, este é só o primeiro passo. Muito precisa ser construído a partir dessa percepção inicial. A análise mais profunda, tão intrínseca ao exercício do trabalho crítico, se dá de forma solitária, com o profissional responsável por essa análise debatendo consigo mesmo os prós e os contras do que acabou de ser visto. Mas esse mesmo processo engrandece de modo exponencial quando compartilhado. E foi justamente isso que esses dias no Olhar de Cinema permitiram: não apenas o contato com obras e cinematografias de encher os olhos, mas, também, essa proximidade, essa troca e a possibilidade de observar através dos olhos daqueles que estavam ali, irmanados pela mesma responsabilidade, dividindo aquela preciosa tarefa. Isso tornou o nosso caminho ainda mais rico, satisfatório e positivo em todos os aspectos.

E o que dizer de um evento que, além de abrir essa janela para o mundo, também nos permite um debruçar sobre grandes clássicos do cinema feito tanto no Brasil como no exterior? Pois, além destes dez trabalhos inéditos sobre os quais exercemos nossos critérios e análises, também tivemos janelas que nos colocaram em contato com longas que marcaram a história. Como não ficar maravilhado diante de uma exibição de uma cópia restaurada de trabalhos tão icônicos quanto A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George A. Romero, ou O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, ambos completando cinquenta anos dos seus lançamentos, ou se maravilhar pela primeira vez com uma pérola como Hienas (1992), de Djibril Diop Mambéty, parte da retrospectiva dedicada ao cineasta senegalês? Estes são apenas alguns dos pequenos – e maravilhosos – encontros que o Olhar de Cinema permite. Sessões que ficarão na memória de quem as viveu – e marcados para sempre em nossas jornadas, críticas e afetivas.

* Robledo Milani foi júri Abraccine no 7º Olhar de Cinema de Curitiba.

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