O Festival de Brasília nos tempos do Corona

Por Marcelo Lyra*

A edição de 2020 do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro vai ser lembrada como a edição possível em meio à pandemia na saúde e na política. O Festival esteve ameaçado, e acontecer foi um feito heróico. No entanto decisão pela realização em cima da hora gerou alguns equívocos. Como não havia tempo hábil para que todos os filmes inscritos pudessem ter uma avaliação mais criteriosa, o resultado nos longas metragens foi uma seleção com perfil memorialista, alinhada com o perfil do curador Sílvio Tendler, bem diferente do estilo antenado e vibrante que vinha marcando edições anteriores ao desgoverno atual. Quatro dos cinco documentários voltam seus olhos para o passado, seja para a carreira de cineastas históricos como Mário Carneiro e Ivan Cardoso, seja para a gênese de Macunaíma ou o trajeto de antigas cartas.

Comecemos pelo lado positivo. Que bela escolha essa do júri, ao premiar Por Onde Anda Makunaima. Foi a melhor surpresa desse festival. Um mergulho na gênese do mito Makunaima que se originou séculos antes entre indígenas na fronteira entre Brasil e Venezuela, foi registrado por um antropólogo alemão, impressionou o poeta, escritor e ensaísta Mário de Andrade, resultando num romance seminal que por sua vez gerou obras geniais no cinema e teatro. O diretor Rodrigo Séllos entrelaça a origem da lenda a seus derivados, alinhavando histórias de forma coerente e orgânica. Cinema e teatro devoram e digerem o mito original, devolvendo arte em seu estado mais puro.

O júri oficial foi bastante feliz também no destaque para Ivan O Terrirvel, do diretor Mário Abbade. O filme encontra ritmo e linguagem em perfeita sintonia com seu retratado, o que não é pouca coisa. Além disso, dá conta de boa parte obra desse vulcão criativo que é Ivan, resgatando imagens de seus curtas em Super 8mm, que o próprio Ivan vem recuperando e organizando nos últimos anos. Parte da carreira de Ivan Cardoso me lembra (e o documentário reforça isso) a versão cinematográfica do movimento musical intitulado Pilantragem, do final dos anos 60, que teve como ícones Wilson Simonal e Carlos Imperial e tinha como mote a malandragem para se dar bem, inclusive com mulheres. O filme expõe bem as contradições de Ivan simplesmente deixando-o falar, mostrando seu oportunismo, e também o machismo que resulta numa certa objetificação da mulher. Mas diferentemente de Eduardo Coutinho em Theodorico, Imperador do Sertão, que consegue um perfeito distanciamento, o filme de Mário Abbade de certa forma abraça o pensamento de seu retratado. Feita a ressalva, é um belo filme, merecida homenagem a um artista da maior importância para nosso cinema.

Tenho carinho pelo filme A Luz de Mário Carneiro, que retrata de forma de forma agradável a figura genial de Carneiro, essencial para a história do cinema brasileiro; e alguma simpatia por Entre Nós Talvez Estejam Multidões, o preferido de meu pares no Júri da Crítica. A maior decepção ficou mesmo por conta do único filme de ficção do Festival: Longe do Paraíso, de Orlando Senna. Confesso que tinha enorme expectativa, pela admiração por Senna, mas o que assisti foi um filme frouxo, repleto de clichês e que se salva pelo bom trabalho da atriz Emanuelle Araújo. Difícil entender os critérios que levaram à seleção desse como o único filme de ficção do festival, que em tese o classificaria como a melhor ficção produzida no Brasil neste ano. Como está longe disso, sua escolha expõe a fragilidade e falta de critérios na apressada seleção deste ano.

Além disso, considero equivocada a ideia de colocar um único filme de ficção em meio a cinco documentários, pois de cara já inviabiliza os prêmios de ator e atriz. Embora eu pessoalmente prefira a separação por categorias, com filmes de ficção e documentários concorrendo em

categorias separadas, não vejo problemas que disputem todos juntos. Mas seria coerente e necessário que houvesse no mínimo dois filmes de ficção em disputa.

O fato do festival ter um filme de ficção isolado em meio a documentários acabou gerando outro equívoco, dessa vez cometido pelos três membros do júri, que resolveram eliminar os prêmios de ator e atriz, bem como os de coadjuvantes. Até aí, ótimo, não faria sentido premiar um melhor ator se ele é o único na disputa. O problema é que passaram a vassoura também em prêmios importantes tanto para ficção quanto para documentário, como direção, fotografia, montagem, trilha sonora… Particularmente montagem e direção são essenciais para documentários e prêmios nessas categorias são bons também para alavancar a carreira dos profissionais. A opção de jogar tudo fora me causou particular estranheza pelo fato de um dos três membros do júri ser Joel Zito Araújo, um destacado documentarista, que deveria entender a importância desses prêmios.

Não é improvável que tal decisão tenha sido fruto de outro equívoco desse festival: a presença de apenas três membros para cada júri. Júri pequeno é quase sempre complicado. As melhores discussões que participei em júris foram com a presença de cinco membros, que permite avaliar melhor qualidades e problemas de cada filme, por intermédio de um debate mais diversificado. Com apenas três pessoas, é muito fácil ser voto vencido, mesmo estando com a razão.

Entre mortos e feridos, o que fica para a história é que o festival aconteceu, contra tudo e contra todos, evitando a tragédia maior que seria sua não realização. Que os equívocos citados sirvam de aprendizado para futuras edições.

*Marcelo Lyra fez parte do Júri Abraccine

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