
Valor Sentimental acompanha Nora e Agnes, duas irmãs que, após a morte da mãe, precisam lidar com o retorno do pai, um cineasta ausente que tenta se reaproximar delas. A convivência desperta conflitos antigos, ressentimentos e diferentes formas de lidar com memória, afeto e ausência. O filme observa como relações familiares são atravessadas por silêncios, tentativas de reconciliação e pelo peso emocional do passado.
Ficha técnica
Título original: Sentimental Value
Direção e roteiro: Joachim Trier
Elenco: Renate Reinsve, Inga Ibsdotter Lilleaas, Stellan Skarsgård, Elle Fanning
Direção de fotografia: Kasper Tuxen
Montagem: Olivier Bugge Coutté
Trilha sonora: Emilie Levienaise-Farrouch
País: Noruega
Ano: 2025
Veja o que associadas e associados da Abraccine estão falando sobre o filme:
TEXTOS
As cenas com Stellan Skarsgård são estéreis, carecem de vigor (ou mesmo de melancolia genuína) e o próprio personagem é desinteressante. Já as duas irmãs têm uma dinâmica que quase salva o filme, principalmente graças à interpretação de Inga Ibsdotter Lilleaas, atriz que até então desconhecia, mas que me deixou atento em cada momento que entrava em cena.
Aílton Monteiro, Diário de um Cinéfilo
Como se percebe, é um filme de muitas camadas de relações que dá margem a muitos questionamentos e situações humanas fundamentais. Tem densidade e emoções à flor da pele, sem sentimentalismos e sem evoluir para o melodrama.
Antonio Carlos Egypto, Cinema com Recheio
O longa se estrutura em blocos, variando entre trechos em que Nora e seus dramas são o foco e outros em que Rachel e suas dificuldades dominam a cena. Não há nada de errado em si com a maneira como Trier lida com as questões das duas personagens, mas a constante oscilação entre ambas esfria um bocado a relação entre o espectador e cada uma delas. Essa alternância gera um distanciamento que atrapalha a fruição do longa, ainda que, na reta final, de fato Trier estabeleça um vínculo emotivo e afetivo entre as personagens e o público. Mas, talvez, seja um pouco tarde demais.
Bruno Ghetti, Revista Cult
Depois de tudo, não há uma família que se reencontra, há pessoas que entendem que talvez nunca tenham sido uma família, pelo menos não do jeito que os outros imaginam. Valor Sentimental confronta o espectador com essa verdade.
Cecilia Barroso, Cenas de Cinema
E assim, o filme mostra como o trauma não se dissolve com o tempo, mas reverbera em cada tentativa de aproximação com a filha mais nova. O espectador é confrontado com a impossibilidade de elaborar plenamente a dor, e com o modo como ela contamina relações futuras.
Daniel Herculano, Clube Cinema
Existe um comentário também se quisermos olhar além das relações entre o palco do teatro e a projeção cinematográfica. O extravasamento que pressupõe o teatro, inerente ao espaço para com o público, e a retenção das emoções, que está mais ligada à intimidade da câmera do cinema e o escuro da sala, como se representasse a relação que Nora e Gustav possuem com a arte como maneira de expressar seus próprios sentimentos.
Fabiana Lima, Peliplat
“Valor Sentimental” é acima de tudo uma análise coloquial, cotidiana e cognitiva de como as emoções humanas interferem e redirecionam consequências. Sim, tudo aqui é sobre nós mesmos enquanto seres sociais, vivendo em um coletivo que estimula, contraditoriamente, a individualidade exacerbada.
Fabrício Duque, Vertentes do Cinema
Respira nos não-lugares, nos intervalos, no branco das paredes e nos olhares que não se completam. A potência está em momentos de suspensão, onde a dor, o afeto e a tentativa de reconciliação coexistem sem se resolver plenamente. Não é sobre a cura em si, mas sobre o processo. Errar, insistir e, falhar de novo mas querer errar diferente na próxima vez.
Gabriel Pinheiro, Medium
O intimismo na arte nórdica é marcado por esse gesto de profunda introspecção: a angústia existencial, o isolamento e a valorização do silêncio e dos espaços domésticos como reflexos da psique. Nesse ponto, a casa é fundamental na narrativa. Ela é quase um personagem em torno do qual tudo orbita.
Marcelo Ikeda, Casulofilia
Nora pode ser encontrada em Gustav que, por sua vez, é espelhado nas duas filhas e no neto. Partindo da noção bergmaniana da trágica incomunicabilidade entre pessoas que se amam, Trier expande a nossa percepção sobre o funcionamento dos personagens em conjunto, sobretudo o quanto eles se enxergam exatamente naquilo que os angustia. Familiares que conflitam por se perceberem nas piores características do próximo.
Marcelo Müller, Kinorama
O roteiro de Valor Sentimental começa a ficar engessado, com atitudes que lembram um efeito dominó dramático. Tudo passa a seguir uma linha reta previsível para que os ressentimentos encruados anos a fio se dissolvam em um simples passe de mágica.
Marco Fialho, Cinefialho
O cinema escandinavo é conhecido mundialmente por seus dramas familiares profundos muito bem escritos e com grandes atrizes e atores à frente desses complexos papéis. Valor Sentimental, dirigido em 2025 pelo dinamarquês Joachim Trier, é mais um excepcional exemplo dessa escola cinematográfica que tem como nome maior o sueco Ingmar Bergman.
Marden Machado, Cinemarden
Assim, quando falamos da honestidade de uma obra, não se trata necessariamente de uma discussão sobre sua autenticidade factual, sobre uma reprodução literal de incidentes biográficos, mas sim de sua capacidade de refletir uma verdade pessoal, uma experiência subjetiva que, mesmo quando transformada pela imaginação, mantém sua raiz emocional.
Pablo Villaça, Cinema em Cena
O filme como um todo, portanto, parece um esboço, tanto quanto o roteiro de Gustav, constantemente reescrito, traduzido e atualizado. Dá para compreender o porquê de este enredo ser tão efetivo para quem se identifica com o dilema familiar apresentado (o do “pai ausente”), não obstante ser insatisfatório na explicação dos motivos para a ausência de Gustav.
Wesley Pereira de Castro, Críticas de um Cinema Nu
O mais importante é o drama denso da relação rompida que toma um desvio da resolução tradicional. Aqui, o agente que provoca a ruptura é também aquele que melhor compreende a situação, assume a responsabilidade e quer resolvê-la.
Eduardo Kaneco, Leitura Fílmica
Podcast
Meninos, Eu Vi!, de Rodrigo James
Entrevistas
Enoe Lopes Ponte, para Coisa de Cinéfilo: Joachim Trier fala sobre Valor Sentimental, em conversa exclusiva com o Coisa de Cinéfilo
Cecilia Barroso, para Cenas de Cinema: Uma conversa sobre Valor Sentimental



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