Festival jovem e surpreendentemente maduro

11391309_1105374489476694_6254303637191529884_n

Pablo Villaça*

Há festivais que nascem surpreendentemente maduros.  Embora esteja apenas em sua quarta edição, o Olhar de Cinema, que ocorre em Curitiba, tem jeito e aparência de festival adulto: a organização é invejável, o cuidado com os críticos visitantes é melhor do que aquele exibido por muito evento veterano e – o mais importante – a programação de filmes traz uma coesão admirável.

Quem acompanha minhas coberturas através do Cinema em Cena, do Twitter e, recentemente, pelo Submarino, sabe que é muito difícil que as mostras contidas em festivais tragam apenas trabalhos fortes. Sempre há títulos que inspiram um “Como puderam selecionar este bagulho?” e que trazem aquela sensação de termos perdido tempo vendo uma bomba quando poderíamos ter investido em uma outra produção.

Assim, foi com agradável surpresa que, depois de assistir aos dez longas da Mostra Competitiva, percebi que todos mereciam aplausos. Sim, um ou outro se mostrava claramente inferior aos demais, mas numa lista com tamanha qualidade, inferioridade é algo bem diferente de fracasso. Basta dizer que, na reunião que tive com meus colegas da Abraccine para definirmos o vencedor do prêmio da Associação, nada menos do que seis dos dez filmes figuraram na lista de possíveis vencedores (cada um fez uma relação inicial de quatro favoritos). Ao final, optamos pelo fantástico Koza, co-produção da Eslováquia e da República Tcheca, mas poderíamos ter incluído uma menção honrosa para diversos outros.

E quando você comparece a um festival com tantos filmes louváveis, a paixão é inevitável.

O melhor: além da seleção impecável da Competitiva, o Olhar de Cinema também promoveu uma retrospectiva de Jacques Tati e ofereceu também a oportunidade de revisitarmos outros clássicos na telona – e assistir na mesma noite a Playtime – Tempo de Diversão e a Sindicato de Ladrões é um daqueles prazeres cinéfilos que beiram o orgásmico. (Aliás, que sensação deliciosa ver Tati despertando gargalhadas em um cinema cheio em 2015 ou testemunhar o silêncio respeitoso e tocado da plateia diante da dolorosa conversa entre Brando e Steiger no banco de trás do táxi.)

Como se tudo isso já não fosse o suficiente, o festival ainda serviu de palco para a estreia mundial de um documentário lindíssimo que, espero, ganhará logo as telas do mundo: A Loucura Entre Nós, de Fernanda Vareille. Ao sair da sessão, profundamente comovido com o que havia visto, comentei no Twitter que o filme era complexo a ponto de permitir o riso diante de seus personagens ao mesmo tempo em que nos levava a lamentar suas dores. E, de fato, além de servir como reflexão importante sobre o sistema manicomial brasileiro (dialogando, neste ponto, com o clássico Em Nome da Razão, de Helvécio Ratton), o documentário de Vareille questiona o próprio conceito de “loucura” ao apontar acertadamente que muito de nosso tratamento desumano com relação aos que rotulamos como “insanos” tem a ver com nossos próprios medos diante deste mesmo rótulo.

Só por ter me apresentado a A Loucura Entre Nós o Olhar de Cinema já merecia um beijo (e nunca lamentei tanto que festival não tivesse bochecha).

Sim, ainda acho que o sistema de distribuição de ingressos para a crítica merece ser repensado (ir até um shopping para ter o crachá perfurado e receber vouchers para então ter que ir aos cinemas é algo pouco prático), mas este é um pecado menor diante de todos os demais acertos, já que o evento ainda promove debates sobre os mais diversos temas (e tive o privilégio de participar de um deles, “Os filmes clássicos na formação do olhar”, que gerou uma discussão interessante que se tornou ainda melhor graças à participação do público que encheu o auditório).

É uma pena, portanto, que um compromisso (o curso que dei em Belo Horizonte) tenha me impedido de acompanhar o Olhar de Cinema desde o começo. Em quatro dias de festival, vi 17 filmes geralmente tão bons que criaram em mim apenas a frustração por não ter podido ver mais.

Mas 2016 já está aí, não é mesmo?

* Criador do site Cinema em Cena e sócio da Abraccine

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s