Festival de Brasília – Comentários

O crítico Luciano Ramos apresentou o seu boletim diário sobre o festival de Brasília em sua coluna Cinema Falado. Aqui você pode conferir a transcrição de alguns trechos.

Por Luciano Ramos*

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Dia 21 09 2017
(…) Provavelmente refletindo a agitação que caracteriza a vida política da atualidade, verifica-se alguns exageros por parte do público que sempre foi considerado o mais, digamos, “politizado” dos festivais brasileiros. De fato ele atravessou todas as crises pelas quais passou ao longo deste meio século de existência. Até onde caminham as nossas lembranças, ao lado do que se pesquisa nos documentos de referencia, pode se concluir que um dos debates mais violentos da história desta competição aconteceu no último dia 16, em torno do filme Vazante, dirigido por Daniela Thomas.

Filmada com uma requintada fotografia em branco e preto, a cargo do virtuose Inti Briones, a história se passa em Minas Gerais do século XIX, nas terras de um negociante de escravos. O proprietário é Antonio, que perde a esposa, morta durante o trabalho de parto e se casa outra vez, agora com uma moça bem mais jovem e que parece ter problemas para gerar filhos. Deixada sozinha na Casa Grande, durante as prolongadas expedições do marido, ela encontra nos escravos, a companhia que precisa.

Trata-se da primeira realização solo de Daniela Thomas, que já tinha trabalhado em parceria com Walter Salles, em filmes como Terra Estrangeira, Linha de Passe e O Primeiro Dia. O público como um todo e a esmagadora maioria dos críticos presentes aprovaram unanimemente o filme. E a diretora pode dormir tranqüila e saboreando o sucesso. Pelo menos até o dia seguinte, ao se iniciar do debate, ocasião em que ela foi literalmente massacrada por determinada parte público. Um grupo que protestava pelo fato de do roteiro não ter sido escrito a partir do ponto de vista dos escravos. Ou seja, cobrava-se do filme algo a que ele não se propunha. Em suma, não é apenas na vida política e social em que as injustiças acontecem…

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Dia 25 09 2017
(…) Por exemplo não se acreditava que um longa produzido por um coletivo da cidade de Campina Grande na Paraíba pudesse apresentar um nível competitivo. Ainda mais com baixo orçamento e se apresentando como “um filme de gênero”, especificamente o gênero de horror… Mas esse é o perfil de O nó do diabo, projeto que atraiu profissionais consagrados como Everaldo Pontes e Zezé Mota. É um filme de horror que tem como palco um casarão onde os escravos eram supliciados há 200 anos.

O cineasta pernambucano Marcelo Pedroso premiado em 2014 aqui em Brasília pelo documentário Brasil/SA volta a concorrer com Por trás da linha de escudos, que documenta a ação da tropa de choque da Polícia Militar de Pernambuco. Ou seja, das promessas de desenvolvimento futuro, ele passou a focalizar os conflitos do presente. Essa escolha do tema a ser abordado por si só já é polêmica e espinhosa porque esse destacamento é geralmente convocado para atuar em eventos de violência, como manifestações de protesto ações de reintegrações de posse

O outro documentário que compete no festival é Construindo pontes da estreante Heloisa Passos que filma o confronto ideológico e existencial com o seu pai: um dos engenheiros que ajudou a construir a usina hidrelétrica de Itaipu e, para isso, precisou inundou e destruir a paisagem formada pelas cachoeiras das 7 quedas.

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Dia 26 09 2017
Por trás da linha de escudos é até agora o filme mais polêmico do Festival de Brasília n. 50. Seu autor, o pernambucano Marcelo Pedroso foi premiado como melhor diretor em 2014 com o documentário Brasil S/A, que abordava o caminho do desenvolvimentismo, que o país parecia trilhar naquela época. De vocação crítica, o diretor brincava, para não dizer ridicularizava aquela postura aparentemente neoliberal do governo petista.

Pois agora o foco do cineasta mudou radicalmente, ao desenvolver um documentário aprofundado sobre a Tropa de Choque da Polícia Militar pernambucana. Alguém poderia imaginar que Marcelo estaria traindo seus ideais – ele que é o cineasta mais engajado da esquerda recifense. Aquele mais intensamente envolvido com os grupos ligados ao ativismo de protesto contra as reintegrações de posse e o exagero dos investimentos imobiliários em Recife.

Os teóricos do cinema classificariam este projeto como um “documentário performático”, porque seu diretor participa dele também como personagem, deixando-se filmar no decorrer das tomadas. Não apenas entrevistando os soldados e os oficiais, mas partilhando com eles algumas sessões de treinamento, como operações de manejo de gás lacrimogêneo e uso de escudos. E, além disso, gravando algumas atividades lúdicas da tropa, como por exemplo, campeonatos de peteca e aulas de yoga ou relaxamento.

É evidente que, para obter um resultado minimamente satisfatório, Pedroso precisava conquistar não só a confiança, mas também a simpatia dos soldados. Até porque o seu objetivo político aponta para uma possível e futura pacificação dos militares, ou seja, um difícil, mas não impossível processo de civilização da tropa. A grosso modo, trata-se de trabalhar para diminuir a violência e a agressividade costumeira nos confrontos entre ativistas e militares.

Por causa disso, o cineasta foi alvo de uma série de mal entendidos em Brasília por parte de alguns militantes presentes ao debate do Festival. Gritavam palavras de ordem como “você precisa cortar determinada cena” ou “você devia ter feito assim ou aquilo” nesta ou naquela passagem. Essas pessoas se esqueceram de que é no mínimo inútil ou equivocado exigir de um filme algo que ele não tinha se proposto.

* Luciano Ramos é crítico de cinema, apresentou programas na TV Cultura e apresenta o Cinema Falado desde 2014.

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