24º Cine PE: Bonde e a aventura radical da existência periférica

Maria Caú*

A sinopse de Bonde, um dos curtas-metragens mais instigantes da bastante diversa seleção competitiva do Novo Cine PE 2020, é sucinta: “Três jovens negros da favela de Heliópolis saem em busca de refúgio na vida noturna LGBT+ do centro da cidade de São Paulo”. De certa forma, é simples assim. Porque é na simplicidade que a solidez das relações entre os três protagonistas emerge: são pequenos gestos de afirmação e cuidado mútuos que vão sendo pontuados ao longo dessa aventura compartilhada, a aventura radical do enfrentamento cotidiano da vivência periférica. Se é um triunfo que o roteiro escolha não pormenorizar as identidades particulares de cada um, indo além da necessidade de didatismo muito comum (e até benéfica em certas obras contemporâneas) para abraçar as personagens e aproximá-las amorosamente de quem as olha, como se fossem elas velhas conhecidas do espectador, a palavra-síntese, usada já curtíssima na sinopse, é refúgio. Cabe perguntar onde se refugiam esses jovens negros e moradores de comunidades pobres que expressam identidades de gênero e orientações sexuais também à margem. Aqui o refúgio é menos a festa para a qual as personagens se dirigem do que o caminho que elas percorrem e o fato de que o percorrem juntas (o caminho até a festa, mas também a trajetória anterior, apenas pressentida pelo espectador em toda a sua densidade).

A narrativa transcorre no tempo de algumas horas: o planejamento do encontro, o percurso, a festa, o retorno. Esses pequenos movimentos, no entanto, muito relevam, sendo seguidos de perto pelos olhares e falas desaprovadores de uma sociedade opressora e violenta. O trio, entretanto, não se deixa abater e encontra força na união. O roteiro, assinado pelo Coletivo Gleba do Pêssego, reflete esse caráter comunitário e, salvo uma cena mais marcada entre a personagem lésbica e sua mãe, que resvala no caricatural, escolhe por diversas vezes o caminho menos óbvio de desenvolvimento. De fato, Bonde é um filme motivado (e cativado) por suas personagens, e pouco preocupado  

com plot, reviravoltas ou uma construção narrativa tradicional: em realidade, o que ele faz é nos convidar para chegar junto, nesta festa, trilhando as mesmas estradas dessa galera. “Fiquem unidas” é o lema maior.

Um ponto alto do filme é a opção por evitar a trajetória pressentida pelo público (e que permanece como ameaça nunca inteiramente dissipada): tornar as personagens alvo de uma violência mais direta e dilaceradora do que as micro e macroagressões cotidianas que elas já sofrem. Num dos momentos mais impactantes do curta, em que o trio sofre com uma humilhação policial racista e homofóbica, a inteligentíssima direção de Asaph Luccas faz algumas boas escolhas: primeiro evita mostrar as faces dos agressores, que surgem apenas como vozes caricaturais que repetem estereótipos e intimidações, e por fim constrói uma janela para as reflexões íntimas das personagens, usando uma linguagem contemporânea que incorpora o universo dos vídeos curtos de plataformas como Instagram e TikTok em seu potencial político de articular grupos oprimidos e amplificar vozes antes silenciadas. Esse uso vibrante e oportuno da linguagem das redes sociais, com fotografia e montagem numa alusão direta às imagens que viralizam de forma cada vez mais rápida nesses espaços, se reflete também nos diálogos, que têm forte dimensão de realismo, ao mesmo tempo em que sublinham os laços entre as personagens através da construção de uma linguagem compartilhada e particular.

O final, emocionante e – mais uma vez – simples, em que o trio relaxa unido após a extenuante balada, deixa transparecer que o conceito de família na comunidade LGBT+ é muito particular: para esse grupo, de maneira radical, uma família é composta pelas pessoas que são capazes de acolher você, mesmo (e principalmente) quando a sociedade ou seus parentes consanguíneos demonstram reiteradas rejeições. Eis a verdadeira família, eis o refúgio, eis o bonde.

*Maria Caú fez parte do Júri Abraccine

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