por Arthur Gadelha*
Ao fim da última sessão competitiva do 28⁰ Cine-PE pairou um grande confronto entre o jeito como estava terminando – frio, entorpecido, na peregrinação cansada de “No Caminho Encontrei o Vento” – e o jeito como havia começado dias atrás, na irreverência de forma e discurso de “Memórias de um Esclerosado”. Quando coloquei essa equação em evidência me dei conta de que existia um conflito atraente no texto e na estética dos filmes, de forma geral, para pensar como eles decidem mergulhar e nos abandonar. Como começar e terminar um filme?
Começo, claro, pelo fim. Vencedor do Prêmio da Crítica de Melhor Longa-metragem, o documentário “Invisível” (RJ) tem sua experiência expandida depois que “termina”. A plateia no Cineteatro do Parque ainda estava aplaudindo o título do filme que aparecia sobre a tela preta quando uma nova imagem surge, e fica. Não eram os créditos finais, mas um epílogo. Carolina Vilela e Rodrigo Hinrichsen levam o filme finalizado para apresentar aos seus protagonistas, Sofia e Jorge, um casal de surdocegos juntos há 15 anos. Eles não podem ver ou ouvir o filme propriamente, mas o assistem com apoio de tradutores, riem e se empolgam de novo ao relembrar as histórias que contaram. Do lado de cá da tela, ouvimos a audiodescrição de algumas cenas e as imagens que já tínhamos visto, de repente, tornam-se nossa imaginação.
Esse desfecho confirma o interesse da produção em superar algumas lógicas mais convencionais da estética documental nessa busca pela “retratação da realidade”, como numa cena em que quatro amigos surdocegos estão conversando e a luz do fim da tarde vai caindo para a noite – o que não significa, para a direção de fotografia, necessidade de inserção de qualquer luz artificial para deixar o ambiente menos escuro. Não é o filme que se sobrepõe àquele mundo, mas o contrário.
A pensar nessa ideia de epílogo, de algo que “se separa” do fim na revelação do que não coube até ali, chego em outros filmes e pensamentos. Ainda no documentário, há histórias que usam esse “fim catártico” também para criar o contexto, mesmo que ele seja muito tardio para lhe agregar um valor forte. “Sertão, América” (ES) e “O Silêncio Elementar” (MG) levam ao lettering final a “explicação” de porque as imagens anteriores importam – ambas, curiosamente, no contexto de populações afetadas pela exploração do lugar onde moram: em Minas Gerais e no Piauí, na Serra da Capivara.
Nos créditos finais de “Zagêro” (RS) – vencedor do Prêmio da Crítica de Melhor Curta-metragem –, a fuga ganha um poder simbólico diante da ironia de uma pessoa com deficiência que se vê aprisionada porque quer sonhar depois que acorda. Descendo as escadas, a performance de Victor Di Marco confirma a maleabilidade da sua presença como ator e autor, atravessando tensão e humor para chegar a este fim, do lado de fora.
Também há os finais do lado de dentro. Enquadrando novamente o ridículo da classe média ilhada nas suas estruturas de privilégio, “Solange Não Veio Hoje” (BA) no “epílogo” materializa essa personagem da empregada doméstica que, mesmo presente no cinema brasileiro, por vezes desaparece. Em “Dependências” (RJ) ela é só uma ausência enquanto seu espectador ri do quão infantis e bobos são seus “patrões”. Como se formasse uma trilogia, “Jogo de Classe” (SP) faz o mesmo na dualidade “cômica” entre uma elite e a sociedade que desconhece, quando um grupo de pais se reúne na escola caríssima dos seus filhos para exigir a demissão de um funcionário que também só vai aparecer no fim. Lembro de “Aquarius” (PE), em que a antiga empregada de Clara não passa de um fantasma, um vulto, literalmente. Ainda faz sentido que se busque “traduzir” esse Brasil sem mostrá-lo de cara? Será que esse epílogo ainda faz sentido? Questões do futuro.
*Arthur Gadelha fez parte do Júri Abraccine.
