por Rodrigo de Oliveira*

O Júri Abraccine na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo costuma ter desafios diferentes a cada ano, a depender do enfoque que a associação dá ao prêmio da crítica. Em 2024, Suzana Vidigal, Camila Henriques e eu, Rodrigo de Oliveira, tivemos a tarefa de conferir um “clube dos cinco” para escolher o melhor entre os longas brasileiros na Competição Novos Diretores. Abaixo, leia textos curtos a respeito de todos os títulos, inclusos originalmente na cobertura da revista digital Almanaque21.
Intervenção
Documentário humanista dirigido por Gustavo Ribeiro, “Intervenção” foi o escolhido pelo Júri Abraccine como o melhor filme. E o longa tem inúmeras qualidades para ter merecido o louro. Para começar, o documentário atinge um nervo ao apontar sua câmera para uma situação micro, mas que se mostra macro no Brasil: a luta de classes, a gentrificação e a falta de interesse do poder público para resolver questões de maneira rápida.
No filme, acompanhamos a luta dos moradores de três comunidades de São Paulo, a Nove, a Cingapura Madeirite e a Linha, que estão preparando a desocupação de suas casas para morar em uma área nova, próxima a um condomínio em região nobre. A mudança é retardada por conta dos moradores mais abastados do local, que não desejam que sua área seja ocupada pelos moradores das favelas. E agora?
Tomando uma lição importante do cinema de Eduardo Coutinho, Gustavo Ribeiro busca nas figuras humanas que estão vivendo aquele drama a costura para sua trama. Pessoas como Xandão, um líder comunitário que se coloca à frente da luta por melhorias para sua comunidade, ganham holofote. É nas histórias de cada pessoa que abre sua casa e suas vidas para a câmera de Ribeiro que “Intervenção” se mostra um trabalho ímpar. Mesmo que trabalhe de maneira clássica sua trama, o documentário chama a atenção ao mostrar a força do coletivo na tentativa de gerar as mudanças necessárias.
Sinfonia da Sobrevivência
Michel Coeli chega muito próximo da ação em “Sinfonia da Sobrevivência”, um ótimo e propício documentário a respeito das queimadas que ocorrem no Pantanal. Estamos vivendo um dos momentos mais incendiários da história do Brasil e o filme de Coeli fala de maneira didática a respeito do que acontece nas matas brasileiras, não escondendo que o problema afeta não apenas os humanos, mas os animais. Não é um documentário fácil, visto que a realidade da vida de onças, antas, aves e outros bichos que vivem na mata está longe de ser aprazível de acompanhar. Muito pelo contrário. Mas a denúncia que “Sinfonia da Sobrevivência” concatena é importantíssima e deve ser vista.
O filme mostra, inclusive, como a queimada pode surgir, sim, de algo natural — a matéria orgânica nas matas pode gerar combustão quando o ar é soprado por apenas pisar no chão. Mas ainda que mostrem isso, não é nada perto da ação humana irresponsável. Um dos melhores personagens do documentário é o bombeiro militar, o coronel Barroso, que trava uma batalha hercúlea para levar água para os pontos mais problemáticos da região. Não basta apenas apagar o fogo, mas cuidar dos animais que lá estão. Barroso é imparável e, devido ao governo anterior, acabou sendo retirado de lá por querer agitar demais.
O apuro técnico do documentário chama a atenção, não só por sua câmera próxima, mas pela narrativa que é desenrolada através das ações. O filme foi premiado pelo Júri Oficial da Mostra de São Paulo como Melhor Documentário, ao lado de “No Other Land”.
Bicho Monstro
Curioso que em dois filmes da Competição Novos Diretores tenhamos histórias fantásticas com personagens infantis como protagonistas. Em “Bicho Monstro”, Germano de Oliveira (conhecido pela montagem de várias produções gaúchas, como “Tinta Bruta”, de 2018, “O Acidente”, de 2022, e “Beira-Mar”, de 2015) estreia na direção de longas com uma trama que divide sua narrativa em duas frentes. Na primeira, a menina Ana (Kamilly Wagner) se impressiona com uma peça de teatro sobre o ser misterioso Thiltapes, enquanto fica temerosa sobre o papel de seu pai (Décio Worst) na morte de uma vaca da vizinhança. Duzentos anos antes, um botânico alemão (Pascal Berten) caça o mesmo animal fantástico nas matas da região, sem ter certeza se sua viagem é válida ou apenas a busca por ouro de tolo.
Difícil não se impressionar com a beleza da fotografia de Bruno Polidoro, que captura a região de Santa Maria do Herval e Morro Reuter, no interior do Rio Grande do Sul, com o verde vivo se destacando na tela. A abertura do filme no registro teatral funciona bem, dando um tom fabular à trama. E a atuação de Kamilly Wagner é muito convincente em boa parte do longa. A montagem, no entanto, por privilegiar os takes longos, por vezes não ajuda a esconder que estamos vendo atores verdes na tela. Talvez o plano e contraplano auxiliasse o elenco em cenas mais difíceis.
Muito mais interessante quando está no presente do que no passado, “Bicho Monstro” ainda conta com a presença da ótima veterana Araci Esteves, que sempre traz qualidade a qualquer produção.
A Mulher que Chora
Outra história de fantasia com protagonista infantil, “A Mulher que Chora” mostra o drama do menino Miguel (Zayan Medeiros). Aos 7 anos, ele precisa elaborar os sentimentos confusos que sente ao ser deixado de lado pela mãe (Julia Stockler), que passa por um processo de divórcio. Em Carmen (Samantha Castillo), empregada venezuelana que trabalha na casa da avó (Regina Vogue), o menino encontra, ao mesmo tempo, uma figura materna e um amor em potencial — ao menos, aos olhos de uma criança. Da boca de Carmen, Miguel ouve a lenda da “Mulher que Chora”, um conto aterrorizante para um infante, de uma mulher que teria matado seu filho e que se esconde na mata ao lado de onde moram. A morte ronda e o menino amadurecerá na marra com as perdas que se apresentam.
Com direção e roteiro de George Walker Torres, em seu primeiro longa-metragem de ficção, “A Mulher que Chora” utiliza de uma figura mítica sob o ponto de vista de uma criança para desenrolar sua história— algo que em maior ou menor grau, Germano de Oliveira realiza em “Bicho Monstro”. Curioso que ambos os filmes tenham sido exibidos na mesma Mostra de SP, sejam bem diferentes entre si, mas carreguem esse radical parecido.
Existe uma aura claustrofóbica, aumentada pela fotografia soturna, e boas performances das atrizes centrais — com destaque para Samantha Castillo. A frieza das relações entre aquelas pessoas, entretanto, acaba sendo transmitida para o espectador, que talvez sinta dificuldade em adentrar naquela história.
Todo Mundo (Ainda) Tem Problemas Sexuais
Renata Paschoal atualiza roteiros do saudoso cineasta carioca Domingos Oliveira no divertidíssimo “Todo Mundo (Ainda) Tem Problemas Sexuais”, uma junção de quatro historietas sem ligação uma com a outra, a não ser pelas neuroses da temática sexual. Com ótimo elenco e texto afinado, o filme tem tudo para cativar as plateias brasileiras, conseguindo fugir um pouco da estética das comédias populares, mas ainda buscando um público abrangente.
Em “A Nossa Namorada”, Luiza (Letícia Lima) percebe que o marido Danilo (Dudu Azevedo) está um tanto desinteressado e sugere incluir uma nova mulher na relação, Luiza (Sophia Abrahão). As coisas saem um pouco do controle, como era de se imaginar. Em “Dar e Receber”, Roberto (Samuel Valladares) deseja algo que sua namorada (Maria Santos) nunca lhe deu — e enlouquece ao saber que a recusa a ele não se aplicou aos ex. “Está Tudo na Cabeça” mostra as desventuras do casal de estagiários Pedro (Cauê Campos) e Sara (Júlia Maggesi) quando o rapaz não consegue ter uma ereção nem rezando para todos os santos. Por fim, “Novas Experiências” coloca Artur (Gabriel Portela) numa sinuca de bico quando sua noiva Belinha (Beatriz Linhales) deseja experimentar algo diferente — e sem o noivo. Poderia ele aceitar essa novidade?
São histórias curtas, divertidas, engajadoras, e com grande senso de humor. Cauê Campos, Letícia Lima e Beatriz Linhales são destaque no elenco, que ainda ganha reforço de participações de Hélio De La Peña, Totia Meirelles e Priscilla Rozenbaum.
*Rodrigo de Oliveira fez parte do Júri Abraccine.