por Ismaelino Pinto*

A Mostra de Cinema de Tiradentes é, acima de tudo, um olhar para o novo. Uma instigante coletânea de filmes feitos em eixos tradicionais, como os sudestinos, e também com braços laterais do processo audiovisual brasileiro.
Pela segunda vez na Mostra de Cinema de Tiradentes, agora mais completa, percebi que o evento é muito mais que exibições de filmes em retrospectivas, competições ou recortes pontuais. Tiradentes é uma experiência para o olhar, o novo do novo olhar que nos traga aguçando nossos sentidos mais imagéticos. Por isso, a Mostra de Cinema de Tiradentes tem despertado interesse internacional, o que leva a maior participação de filmes nacionais em mostras e festivais estrangeiros.
A mostra também é reconhecida como um evento que privilegia o cinema brasileiro independente e autoral. É neste caminho que realça com maior nitidez o cinema de autor e feito de forma coletiva, quase independente, que a Mostra se torna única no gênero em meio a tantos eventos de cinema que há no Brasil.
Existe um olhar que vai além das fronteiras, daí o Programa Cinema do Brasil, que promove a exportação e a distribuição de filmes brasileiros no exterior, e reuniu este ano diversos curadores como Bernard Payen, programador da Semana da Crítica (mostra paralela do Festival de Cannes dedicada, principalmente, à descoberta de jovens talentos), e Sérgio Fan, programador do Festival de Locarno, abrindo janelas importantes para filmes independentes brasileiros. Tiradentes expande os horizontes que vão além da semana de exibição, faz um trabalho quase pedagógico para mostrar e ativar o mercado internacional para o audiovisual brasileiro.
A Mostra de Tiradentes é enorme, ou como se diz, gigante. São mais de 150 filmes, amplificados nas mostras paralelas e reformatadas nos debates, alguns mais centrados, outros acalorados e polarizados, como devem ser. Difícil ver em outro evento de cinema brasileiro uma estrutura e logística tão perfeitas como as da Universo Produção, que além de Tiradentes, produz as mostras CineBH e CineOP, todas fechadas e amplificadas nas temáticas que se propõem.
Tiradentes fez desta edição um macrocosmo do cinema feito em todos os estados da Brasil: foram 43 longas, um média e 96 curtas-metragens vindos de 21 estados, com atuação tríplice do Norte, nem sempre tão representada por conta das diferentes leituras curatoriais que os festivais impõem. Mas, desta vez, teve diretores nortistas com filmes do Acre, Amazonas e Pará.
A temática “Que cinema é esse?” reverbera para além das telas como aposta no processo criativo, na liberdade de expressão e na imaginação de novos mundos, arriscando fazer perguntas novas, se lançar para novas fronteiras e na criação, estruturação e ampliação das linguagens para vermos nascer novas ideias.
O júri da Abraccine, este ano formado por André Guerra, Bárbara Demerov e por mim, teve o olhar central para a Mostra Autorais, com diretores que já possuem uma trajetória significativa dentro do universo de mostras e festivais brasileiros. Surpreenderam-me “Centro Ilusão”, do Ceará, de Pedro Diógenes, de estética suavizada pela música que faz a trama percorrer o enredo cru; o documentário “Para Lota”, do Rio de Janeiro, de Bruno Safadi e Ricardo Pretti, sobre a beleza da mansidão de um parque botânico onde paira a escuridão durante a pandemia, e as noturnas interações corporais e subjetivas com jogos de prazer e desejos libidinosos em “Parque de Diversões”, Minas Gerais, de Ricardo Alves Jr, que foi o escolhido pelo júri para receber o Prêmio Abraccine.
A Mostra de Tiradentes é um evento seminal, que estimula novas criações, que traz novas ideias, gera novas obras, inspira olhares e apresenta um Brasil mais real.
*Ismaelino Pinto integrou o Júri Abraccine na 28ª Mostra de Tiradentes.
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