35º Cine Ceará | Repensar a tradição e a memória – uma breve crítica a “Boi de Salto” e “Eco de Luz” 

Por Eduarda Porfírio*

O desejo por língua de boi de uma grávida acaba despertando o interesse em seu filho pela tradição do Boi-Bumbá, essa é a premissa de “Boi de Salto”, curta-metragem dirigido e escrito pela piauense Tássia Araújo.

Vencedor do Prêmio Abraccine no 35º Cine Ceará, ocorrido de 20 a 26 de setembro, o enredo protagonizado por Mikael Costa revisita a tradição do boi de modo ousado e imaginativo ao incorporar reflexões sobre sexualidade e vogue.

O resultado é uma trama inventiva e divertida, que poderia ter mais tempo do que os 15 minutos que possui para desenvolver mais a história e dar mais detalhes sobre aqueles personagens. Mas não deixa de ser uma celebração bonita a tradição do Boi-Bumbá.

“Eco de Luz”, do equatoriano Misha Vallejo Prut, realiza um resgate doloroso e corajoso à memória, por sua vez. Em seu documentário, o fotógrafo de formação inicia uma busca para entender quem foi seu avô, uma figura com quem não conviveu e de quem pouco se fala.

A procura inicia com slides dados ao cineasta por um dos tios e vai tomando forma através das conversas com a avó Mamita Luz, responsável por toda a doçura e carisma presente na história, com o pai e seus tios.

São diálogos difíceis que mostram como os traumas da colonização ainda estão presentes nas famílias sul-americanas, quer sejam do Equador ou do Brasil. O roteiro traz uma abordagem sensível e respeitosa, que não tem pressa em chegar em uma conclusão, revelando que na verdade, esse não é o ponto principal do filme.

Com essa escolha, o cineasta quebra com a romantização que existe quando os assuntos são memória e ancestralidade. Investigar a formação de sua própria família pode abrir feridas que sequer foram cicatrizadas e cuidadas devidamente.

Além disso, Misha ousa ao trazer sua expertise na fotografia para a estética do longa-metragem. Usando fotos com super 8 para produzir cenas e a apresentação de slides fotográficos para ilustrar sua busca.

As imagens estáticas granuladas são usadas em sequência, casando perfeitamente com a narração do diretor que conduz o enredo alternando entre voiceover e as conversas com os parentes.

*Eduarda Porfírio integrou o Júri Abraccine do 35º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, composto em parceria com a Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine).

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