*Paulo Camargo
Vencedor do prêmio de melhor longa-metragem da mostra Competitiva Brasileira do festival Olhar de Cinema, realizado em junho passado em Curitiba, o documentário “Neirud”, da diretora paulista, radicada em Nova York, Fernanda Faya, é uma obra hiper pessoal. Narrado em primeira pessoa, o filme é um tanto autobiográfico, mas não é (apenas) sobre a cineasta, e sim a respeito de uma pessoa de sua família mais próxima, com quem não compartilhava laços sanguíneos, e sim afetivos.
A Neirud que dá título ao documentário aparece pela primeira vez na tela em um vídeo caseiro, quando Fernanda era apenas um bebê. A protagonista, uma mulher negra, alta, muito forte, majestosa, entra em cena de forma doce. Percebe-se o afeto que ela nutre pela menininha que pula de colo em colo em uma festa familiar.
Logo ficamos sabendo que Neirud é uma espécie tia postiça de Fernanda, amiga inseparável da avó de Fernanda (na verdade, bem mais do que isso), e ambas iam e vinham porque levavam uma vida nômade, sempre na estrada, Brasil adentro e afora. Eram artistas circenses, como muitos ancestrais de Fernanda do lado paterno, descendentes de imigrantes ciganos.
Ao tentar reconstituir a trajetória da personagem, Fernanda se depara com uma dificuldade quase fatal para seu projeto de documentário: ao morrer, pouco depois da entrevista concedida em Santos, Neirud não deixou quaisquer fotos ou documentos sobre sua trajetória artística.

Mas “Neirud” não é, tampouco, sobre as raízes familiares da diretora, fincadas sob tendas de circos ao longo de mais de um século de Brasil. O documentário é uma investigação afetiva sobre a personagem-título, que dá uma única entrevista a Fernanda antes de morrer, à beira-mar de Santos, no litoral paulista. Ela revela nesse encontro ter sido abandonada pelos tios na casa de parentes, fugiu de casa, aos 8 anos tornou-se babá de uma família abastada em Belo Horizonte, que deixou para tornar-se artista de circo e, mais tarde, se tornar estrela de luta livre, sob o codinome de Mulher Gorila, por conta de seu grande porte, vigor físico e ancestralidade africana.
Ao tentar reconstituir a trajetória da personagem, alguém ao mesmo tempo muito próximo mas também um enigma, Fernanda se depara com uma dificuldade quase fatal para seu projeto de documentário: ao morrer, pouco depois da entrevista concedida em Santos, ela não deixou quaisquer fotos ou documentos sobre sua trajetória artística. Havia ingressado em uma igreja evangélica, que deplorava o seu passado e a forçou a apagá-lo. Tampouco nos papéis deixados pela avó, Nely, para o único filho, pai da diretora, ela conseguiu encontrar evidências sobre a vida da lutadora. Fernanda viu-se diante de um imenso mar de reticências sobre aquela mulher que tanto marcou sua infância, adolescência e início de juventude.
“Neirud” é, portanto, um filme investigativo, tanto sobre sua protagonista quanto a respeito de sua diretora, dos laços de sua família – mais tarde, o documentário revela que Neirud vive, durante décadas, uma relacionamento amoroso com a avó de Fernanda, só revelado à diretora quando o filme já se desenhava.
“Neirud” é uma obra sensível e poética sobre busca e apagamento. Ao mergulhar na prospecção por sinais da vida de sua personagem, Fernanda vai desvendando mistérios que são tanto sobre a Mulher Gorila, que ela jamais viu em cena, quanto a respeito da sua própria história familiar. Só vemos a protagonista em sua plenitude quando o filme nos revela imagens em vídeo registradas durante uma apresentação da lutadora, encaminhado à diretora durante o processo de produção do documentário. Todas essas narrativas estão enoveladas em uma obra identitária belíssima, na qual a imagem em movimento serve para desvendar, clarificar, e resulta em um ajuste de contas com a verdade e, por fim, uma tocante homenagem à companheira que sua avó tanto amou.
*Paulo Camargo fez parte do Júri Abraccine.
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