por Maria Fabiana Lima*

O 19º Fest Aruanda encerrou o calendário de festivais nacionais, consolidando o que já sabemos ser um momento de efervescência do cinema brasileiro, pelo menos desde que atravessamos a pandemia da COVID-19 e um governo tenebroso, cujo objetivo incluía o desmonte da cultura e do audiovisual. Se existe um ano em que o cinema feito no Brasil e toda a comunidade que o cerca voltaram a sorrir, muito provavelmente foi em 2024 e, através da curadoria irretocável de Amilton Pinheiro, João Pessoa mergulhou de cabeça, de 5 a 11 de dezembro, no mesmo clima festivo que outras cidades e festivais do país já estavam vivendo àquela altura, com centenas de pessoas encantadas com filmes como “Baby”, “Manas”, “Malu”, “A Queda do Céu”, “Kasa Branca”, “Alma Negra” e tantos outros.
Organizada por blocos temáticos que denotavam a sensibilidade desta curadoria, a programação do festival foi uma atração à parte. Dia após dia, as sessões suscitaram discussões férteis por meio da associação de temas como feminismo (“Nua”, “Rita Não Anda Só” e “Ainda Não é Amanhã”), o tempo e as maneiras engenhosas do cinema de manipulá-lo em função da narrativa (“Eu Fui Assistente de Eduardo Coutinho”, “Júpiter” e “A Queda do Céu”), a luta pelo trabalho e questões identitárias relacionadas (“Serão”, “Navio” e “Kasa Branca”) e a música e suas infindas possibilidades cinematográficas e narrativas (“Centro Ilusão”, “Helena de Guaratiba” e “Os Afro-sambas”).
Também houve filmes que se destacaram sozinhos. Dentre estes, primeiramente cito o vencedor do prêmio de Melhor Curta-Metragem do Júri Abraccine, “Ladeira Abaixo.” Gravado no interior da Paraíba com orçamento limitado, o filme precisou apenas de um elenco e inventividade acima da média para incitar discussões complexas sobre o moralismo religioso, conservadorismo e amor na terceira idade, aliando a esses temas um bom humor que cativou a plateia e garantiu à obra mais um prêmio, desta vez do júri popular. Aproveito para destacar também as reações viscerais causadas pelo filme de Marianna Brennand, “Manas”, o qual tem conquistado o mundo ao expor uma questão sensível sobre o abuso sexual infantil com abordagem tão cuidadosa e reveladora, e “Malu”, de Pedro Freire, que eu particularmente considero um dos melhores lançamentos do ano passado, responsável por abrir o Aruanda e protagonizar um dos debates mais enriquecedores da programação.
Por fim, ainda quanto aos filmes, vale jogar luz aos títulos “Quem é Essa Mulher?”, “Lampião, O Governador do Sertão” e “Alma Negra, do Quilombo ao Baile”, todos bons documentários, cada um ao seu modo, sobre temas genuinamente nossos. O primeiro, sobre a primeira médica negra da história do Brasil. O segundo, sobre a figura mitológica mais relevante do nordeste brasileiro. E o último, sobre o movimento antirracista e sua relação com o soul, focando nas questões raciais e culturais que fazem desses artistas e do gênero musical uma amálgama tão rica de influências e ainda tão nossa. Foram filmes verdadeiramente especiais, cujas escolhas se justificam e confirmam o momento singular que estamos atravessando.
Parabenizo o Fest Aruanda por mais uma edição representando o cinema nordestino no circuito de festivais nacionais, por propor um debate importante sobre preservação e restauração no cinema nacional, incluindo a exibição de cópias restauradas de “A Bolandeira”, de Vladimir Carvalho (cujas homenagens, a propósito, iluminaram o festival), e “Aruanda”, de Linduarte Noronha, e por demonstrar, na pessoa de Lúcio Vilar, uma dedicação intensa e consciente da importância do festival, visivelmente abraçado pela comunidade paraibana. Que esse momento vivido pelo cinema nacional em 2024 se torne apenas o início de anos cada vez melhores para nossa indústria centenária, seja nas telas de cinemas, ocupando o circuito comercial com o acesso adequado que merecemos, ou ocupando espaço nas programações dos nossos festivais.
*Maria Fabiana Lima integrou o Júri Abraccine no 19º Fest Aruanda