Concorrência Desleal

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Celso Sabadin*

Ettore Scola, um dos mais geniais cineastas italianos ainda em atividade, já realizou excelentes filmes utilizando ambientações únicas e singulares. Por exemplo: em “O Baile”, a ação transcorria totalmente no interior de um salão de danças. Em “A Família”, o mesmo acontecia dentro de um casarão. No recente “O Jantar”, a ação jamais passava dos limites de um restaurante. E agora, em “Concorrência Desleal”, as câmeras de Scola não saem de uma única rua de Roma.

Ambientar um filme inteiro dentro de um único cenário não é desafio dos mais fáceis. Para encará-lo é necessário muito talento e isso Scola tem de sobra, como mostra novamente em “Concorrência Desleal”.

A história é ambientada em 1938 e começa em ritmo de comédia ligeira. Comandada por Umberto (Diego Abatantuono), a família Melchiorri administra uma tradicional alfaiataria em Roma. O lugar é bem freqüentado, sem luxo, mas bastante representativo de uma Itália conservadora e de hábitos finos. Até que exatamente na casa ao lado, a família judia Simeoni abre uma loja de roupas prontas. Rapidamente, os Simeoni conquistam uma clientela mais aberta aos novos tempos, mais consumista, provavelmente sem paciência em esperar semanas pela confecção de um terno sob medida. Enciumado pelo sucesso do novo vizinho, Umberto se enfurece e chega a brigar fisicamente com Leone (Sergio Castellitto), o comerciante que aos poucos enriquece com sua nova loja. Enquanto isso, alheios a disputas comerciais, os filhos pequenos das duas famílias se tornam grandes amigos. E o filho mais velho dos Melchiorri passa a namorar a filha dos Simeoni, numa espécie de Romeu e Julieta urbano.

Em sua primeira metade, “Concorrência Desleal” explora com bom humor esta polarização de costumes. De um lado, o terno cuidadosamente medido, o tradicionalismo, o cliente atendido quase como um rei. Do outro, a modernização, a roupa pronta, a fila da liquidação, a industrialização derrotando o artesanal. Sinal dos novos tempos que estavam para chegar.

Porém, a ascensão do autoritarismo e a proximidade da Segunda Guerra dão uma guinada à trama. Os nazi-fascistas iniciam a perseguição aos judeus e os Simeoni se vêm cada vez mais encurralados. Ao contrário do que se poderia supor, o ariano Umberto não tira proveito da situação. Solidário, ele começa a cultivar com Leone uma bela e sensível amizade. Perto dali, a cúpula da Basílica de São Pedro assiste a tudo, calada, como que sublinhando o silêncio criminoso e conivente da Igreja Católica.

Indicado a quatro prêmios Donatello – o equivalente italiano do Oscar –, “Concorrência Desleal” segue a linha emotiva típica do cinema produzido na Itália. Como em “Cinema Paradiso e Malena”, só para citar dois exemplos, a narrativa é feita sob o ponto de vista de um garoto que viu o nascer da guerra com olhos ainda ingênuos. Como em quase todos os filmes italianos, as emoções correm soltas, explodem sem cerimônias em lágrimas ou gargalhadas, mexem e remexem em questões familiares e transitam livremente entre o trágico e o cômico.

Tudo isso acontece em “Concorrência Desleal”, mas com uma grande diferença: a direção sempre sutil, elegante e emocionante de Scola, um cineasta de mão leve que faz do cinema um agradável ator de amor e artesanato. Um cineasta que faz de um simples beijo roubado sob uma escada um grande acontecimento cinematográfico. Singelo e apaixonante, “Concorrência Desleal” é candidato a figurar nas listas dos melhores do ano.

Co-produzido com a França, o filme traz participação de Gérard Depardieu, infelizmente dublado em italiano.

* Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema

** publicado originalmente no site Cineclick em 3 de setembro de 2001

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