Da relevância e do interesse

Camila Vieira *

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Eis um problema recorrente no documentário contemporâneo: confiar que basta tema relevante ou personagem interessante para realizar bom filme. Dentro da mostra competitiva de longas-metragens do 22º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, cinco dos sete títulos caíram nesta armadilha de se deixar seduzir pela pertinência temática de algum tema de interesse comum ou pelo fascínio a um personagem com uma trajetória de vida que merece ser contada.

Mexeu com uma, Mexeu com Todas, de Sandra Werneck, parte da temática do abuso sexual e da violência contra a mulher, além do debate em torno da primavera feminista no Brasil. O longa se acomoda em coletar depoimentos de mulheres – em boa parte, reconhecidas publicamente, como Maria da Penha, Luiza Brunet, Joana Maranhão e Clara Averbuck – que relatam suas histórias de assédio, estupro, abuso. Não há nada para além da explicitação dos relatos.

Em Um Mundo Interior, de Flavio Frederico e Mariana Pamplona, toma como ponto de partida o interesse pelo autismo, tanto em explicitar ao espectador questões científicas em torno do Transtorno do Espectro Autista, quanto em apresentar personagens diretamente envolvidos com a questão – crianças e jovens autistas, além de pais, médicos e terapeutas. Por se estruturar de forma didática, o filme poderia buscar outras janelas de exibição, como órgãos públicos de saúde e instituições educativas, já que coloca em questão a forma como o autismo é tratado no campo da medicina e na formação escolar e familiar.

Quem é Primavera das Neves, de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado; Tudo é Irrelevante: Hélio Jaguaribe, de Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan, e Maria – Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos, de Francisco C. Martins, padecem da mesma fragilidade de não conseguir dar profundidade cinematográfica às trajetórias extraordinárias de seus personagens. A vida e a obra dos três personagens – a tradutora e poetisa Primavera das Neves, o filósofo Hélio Jaguaribe e a artista plástica Maria Martins – são traduzidas pelo uso banal, didático e televisivo de materiais de arquivo intercalados por talking heads.

Os únicos filmes da mostra competitiva que rompem com tais armadilhas são Cidades Fantasmas, de Tyrell Spencer; e A Terceira Margem, de Fabian Remy. O primeiro concede a duração certa às paisagens desoladoras das quatro cidades fantasmas que escolheu para compor a narrativa do filme, além de dar força aos depoimentos dos antigos moradores. O segundo se permite derivar com um de seus personagens principais, o índio Thini-á, para flertar com a mise-en-scène em uma busca pela história de outro personagem que guarda mistério. Respeitar a nuance e o enigma talvez seja o caminho mais interessante para a pesquisa documental.

* Camila Vieira é jornalista e crítica de cinema, curadora do Cine Clube Delas;  membro do júri Abraccine no 22º É Tudo Verdade. 

** Foto do filme Cidades Fantasmas.

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