A Força do documentário no 11º Fest Aruanda

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Cena do filme “Silêncio no estúdio”, de Emília Silveira

Fatimarlei Lunardelli *

O documentário tem sido o que há de mais instigante no cinema. Este gênero cujas fronteiras transitam entre o real e o ficcional, entre verdadeiro e falso, entre a subjetividade e a objetividade nos desafia de modo permanente. Entre tantos momentos cinematográficos marcantes o documentário se destacou no 11º Fest Aruanda, em dezembro de 2016, em João Pessoa, que iniciou valorizando a cultura regional com “Axé – Canto do Povo de um Lugar”, de Chico Kertész, e terminou celebrando a figura solar de Antonio Pitanga pelo olhar amoroso da filha Camila que assinou “Pitanga” com o paulista Beto Brant. Também foram momentos altos o relato do mestre Vladimir Carvalho sobre o artista notável que foi “Cícero Dias: O Compadre de Picasso” e a homenagem a Péricles Leal com “O Criador Esquecido”, de João de Lima e Manuel Clemente, que integraram a mostra Sob o Céu Nordestino. A potência do documentário apareceu especialmente nos títulos que concorriam ao Prêmio Aruanda: “Divinas Divas”, estreia da atriz Leandra Leal na direção, que ficou com o prêmio na categoria e do júri popular de melhor filme e “Silêncio no Estúdio”, de Emília Silveira, reconhecido com os prêmios de montagem e trilha sonora.

O que sobressai nas duas obras é a narrativa de vida. Como seres sociais e simbólicos que somos, histórias tem o valor de nos ligar na teia social, de tal modo que aprendemos sobre a vida na medida em que, sobre ela, contamos. Quanto mais autêntico o relato, maior seu valor de significação. Leandra Leal, em estreia premiada como diretora, demonstra segurança ao contar a história da primeira geração de artistas travestis do Brasil. A singularidade do filme está na intimidade da atriz com as oito artistas que reúne para um espetáculo de celebração dos 50 anos de uma história que começou nos palcos familiares do Teatro Rival. Foi nesta histórica casa de espetáculos do avô Américo Leal que Leandra iniciou no mundo artístico. Na familiaridade reside a força dramática de “Divinas Divas”.

Quem fala é Leandra, tanto como voz narradora quanto ordenadora das 400 horas de material gravado do qual extraiu os 110 minutos de um filme cujo olhar íntimo e amoroso é a diferença no tratamento do tema. Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Brigitte Búzios e Marquesa, a quem é dedicado o filme, falam de si e expõem seus sentimentos. Ao dar espaço de expressão a cada uma delas, Leandra também fala de si, agregando ao filme a força de sua história pessoal, na qual podem ser espelhadas histórias de tantos outros artistas mundo afora. A proximidade com Leandra e a cumplicidade do mundo artístico ao qual todas pertencem dá o ganho de dignidade que distingue “Divinas Divas”.

O outro documentário com forte carga pessoal, “Silêncio no Estúdio”, foi dirigido por Emília Silveira para, ao contrário de Divinas Divas, cuja força emerge da proximidade, encontrar o exato ponto de equilíbrio pelo afastamento do tema. Com extraordinário vigor, o filme entra na vida de Edna Savaget, escritora, poeta e precursora dos programas femininos na TV brasileira cujo nome foi grosseiramente esquecido da história da televisão. Depois deste documentário, tal omissão não será mais possível. O resgate do nome de Edna era um desejo antigo de Luciana Savaget, jornalista formada na televisão, produtora do Arquivo N da Globo News, que não se conforma com a omissão em relação à sua mãe. Para tanto, convidou a jornalista Emília Silveira que, depois de anos à frente dos especiais da TV Globo, estreou em 2013 no cinema com o premiado documentário “Setenta”.

Edna Savaget faz barulho, e muito, em “Silêncio no Estúdio”. Ao narrar a trajetória profissional de uma mulher à frente de seu tempo, com espírito inovador, o filme penetra na intimidade de uma figura transbordante. Egressa da primeira turma de jornalistas formados em 1952, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Edna passou pelas principais emissoras de televisão e atuou em rádio. Compreende-se a dificuldade de distanciamento de Luciana que permitiu a Emília liberdade para trabalhar sobre abundante material documental. Na arena profissional Edna falou com ousadia sobre comportamento nos horários vespertinos da TV brasileira e abriu espaço para a música popular, divulgando artistas em início de carreira. O filme não existiria sem o arquivo minuciosamente construído pelo marido Leopoldo. Foi porque guardou tudo da esposa que foi possível mostrar imagens que nem a Rede Globo possui, do último programa de Edna. Sabedora que seria demitida por Walter Clark, ela antecipa-se e, ao vivo, demite-se antes. Afronta imperdoável, fez dela um nome maldito.

Correndo o risco de invadir os limites da intimidade, “Silêncio no Estúdio” busca revelar o ser humano, incluindo os aspectos sombrios. Do relato emerge uma figura cuja importância histórica é devidamente resgatada e uma pessoa que marcou a todos pela intensidade como viveu. Assim como em Divinas Divas, a qualidade desses documentários premiados no 11º Fest Aruanda está na verdade de uma experiência vivida que o cinema busca capturar e, narrando, compartilhar.

* Fatimarlei Lunardelli é crítica de cinema; membro do Júri Abraccine no 11º Fest Aruanda do Cinema Brasileiro

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