Cada Um Vive Como Quer: alguns olhares sobre um clássico da Nova Hollywood

Numa iniciativa louvável do Cine Olido em São Paulo, Cada Um Vive Como Quer, filme de Bob Rafelson lançado em 1970, reestreia numa sala de cinema em fevereiro.

Na tentativa de contextualizar o momento da Nova Hollywood em que o filme existiu e dar olhares contemporâneos a um acontecimento do passado, o Blog Abraccine publica na sequência quatro textos sobre Cada Um Vive Como Quer, escritos por críticos da nossa associação.

Neusa Barbosa sobrevoa o enredo do filme e aspectos da restauração da cópia; Heitor Augusto coloca o filme de Rafelson em perspectiva com os contemporâneos da Nova Hollywood; Cid Nader comenta o prazer de dialogar com um filme datado; Sérgio Alpendre traça um breve paralelo com um filme de Vicente Minnelli.

Boa leitura!

Bobby Dupea e Bob Rafelson: ligações biográficas

Por Neusa Barbosa (originalmente publicado no Cineweb)

Dando sequência a um bem-vindo relançamento de clássicos do cinema em cópias restauradas, iniciado em dezembro de 2011 com Taxi Driver, de Martin Scorsese, o Cine Olido de São Paulo reprograma a partir da sexta (24/2) Cada um Vive como Quer, de Bob Rafelson. O filme fica em cartaz na sala até 1º de março.

Este drama de 1970,  com quatro indicações ao Oscar – melhor filme, roteiro original, ator (Jack Nicholson) e atriz coadjuvante (Karen Black) – foi o primeiro papel como protagonista de Jack Nicholson, que vinha do sucesso num papel secundário em Sem Destino (1969).

A restauração, realizada em 2010, no quadragésimo aniversário do filme, exigiu uma transferência dos negativos originais de imagem da película 35 mm para um arquivo digital com qualidade de resolução 4K. A partir desse material, técnicos especializados iniciaram um minucioso trabalho de reparação, remoção de arranhões e sujeiras quadro a quadro. Finalizada essa fase do trabalho, o arquivo digital restaurado foi transferido novamente para o negativo 35mm que, finalmente, deu origem à cópia que será exibida no Cine Olido.

Mais de uma vez, o diretor Bob Rafelson, autor da idéia original do roteiro, escrito por Carole Eastman, admitiu as ligações autobiográficas com o protagonista Robert Eroica Dupea (Jack Nicholson) – um homem de origem aristocrática que deixou para trás uma carreira como pianista clássico para tornar-se peão da indústria de petróleo, bem longe de casa.

Levando uma vida proletária, Robert liga-se à garçonete Rayette Dipesto (Karen Black), uma mulher simplória e totalmente apaixonada por ele. Robert, por sua vez, nunca está feliz. Ele se sente tão deslocado nesse ambiente quanto se sentia em casa, sob a sombra do pai, um gênio musical, e de irmãos igualmente devotados à música clássica.

Um dia, Robert entra em contato com a irmã Tita (Lois Smith), descobrindo que o pai, Carl (Ralph Waite), está muito doente. Ela o convence a voltar, pelo menos para vê-lo uma única vez. Carente, Rayette quer ir junto, mas ele acaba deixando-a à sua espera, num hotel na estrada.

O clã Dupea vive numa ilha, num ambiente dominado pela música e pelas lembranças do passado, que parece pesar nas fotografias que cobrem as paredes. Ali, Robert sente-se mais fracassado do que nunca. Um raio de luz é a presença de Catherine (Susan Anspach), namorada de seu irmão, Nicholas (William Challee), por quem ele sente uma atração tão irresistível quando arriscada.

Filmado em 40 dias no inverno de 1970, com um orçamento de apenas US$ 900 mil, Cada Um Vive como Quer entrou para a galeria dos filmes emblemáticos dos anos 70. Estreando no início da era Richard Nixon, encenou a dúvida existencial profunda de uma época que colocava em xeque o american way of life, mas também já não podia mais crer na contracultura dos anos 60.

O personagem Robert Dupea definiu a persona cinematográfica de Jack Nicholson. Tendo iniciado sua carreira em filmes B ou de terror – como A Pequena Loja de Horrores (1960), de Roger Corman -, a partir do filme de Rafelson se tornou um dos grandes intérpretes do cinema norte-americano, protagonizando filmes como Chinatown (1974), de Roman Polanski, Um Estranho no Ninho (1975), de Milos Forman, O Iluminado (1980) de Stanley Kubrick, até o recente Os Infiltrados (2006), de Martin Scorsese.

Nova Hollywood: uma conversa com Scorsese, Coppola e Hal Ashby

Por Heitor Augusto (originalmente publicado no Urso de Lata)

O tempo e a revisão fazem bem ao filme de Bob Rafelson. Cada Um Vive como Quer (Five Easy Pieces) é tão datado quanto seu contemporâneo Sem Destino (Easy Rider). Falo de ser datado no bom sentido, pois é praticamente irresistível não cair na tentação de buscar pontos de diálogos dos filmes da Nova Hollywood e perceber como eles refletem um certo humor dos Estados Unidos.

Muito comum naquele momento do cinema, em que os estúdios estavam em crise, tentando entender o que a juventude queria ver na telona e como tirar o público de frente da telinha, os personagens que embarcam numa jornada de busca tomam o lugar dos homens cheios de certeza. Saem os grandes eventos, entram os detalhes dos cotidianos. Pessoas normais, gente como a gente, de questões comuns.

Em Cada Um Vive como Quer, Robert (Jack Nicholson), que prefere a alcunha de Bobby, largou para trás sua família aristocrata e de músicos para viver de bicos. Quando o conhecemos, no começo do filme, ele trabalha como peão de obra. Logo descobriremos que, assim como a de seus irmãos, sua trajetória estava moldada para tornar-se um grande pianista.

Filme de incertezas, cortes secos, personagens comuns, finais abertos, recusa em mastigar a história ao espectador, atuações fortes, a estrada como o espaço dos acontecimentos… Cada Um Vive Como Quer compartilha uma série de características de outras produções da Nova Hollywood, aquela geração que se forma em cinema em meados dos anos 1960 e aproveita esse hiato na indústria para tornarem-se diretores.

Em Coppola, uma jovem mulher recém-casada não aguenta a pressão do cotidiano e entra numa aventura sem rumo definido (Caminhos Mal Traçados). Em Scorsese, uma viúva na casa dos 30 pega a estrada com o filho e tenta bancar o sonho de viver como cantora (Alice Não Mora Mais Aqui). Em Dennis Hopper, dois arquétipos da contracultura viajam de cabo a rabo pelos Estados Unidos (Sem Destino). Em Ashby, um jovem amplia sua perspectiva com o mundo ao conviver com uma septuagenária (Ensina-me a Viver).

De maneira alguma trata-se de cópia. Temos ali refletido um mood de uma nação. Continua sendo um prazer olhar para o conjunto desses filmes e criar leituras entre eles. A descoberta é um tema comum a todos os personagens.

É muito bem-vinda a reestreia promovida pelo Cine Olido, pois na produção da Nova Hollywood ele se tornou um filme bem menos comentado que seus contemporâneos. Cada Um Vive Como Quer é menor que um Taxi Driver, mas é bem melhor do que a gente costuma lembrar.

Além do dialogo com um momento de um país, ainda encanta neste filme de Bob Rafelson o equilíbrio entre cinismo, humor e melancolia. Há um vazio imenso nos personagens do enredo, encoberto pelas situações cômicas que aparecem pelo caminho (o irmão com o pescoço quebrado, a namorada histérica, as caroneiras que querem se mudar para o Alasca etc).

Outro mérito é ter Jack Nicholson em grande forma – entre 1969 (Sem Destino) e 1980 (O Iluminado), ele emendou uma sequência de grandes filmes e algumas obras-primas. Quando o filme confia na força do personagem, no talento de seu ator e investe no aspecto à deriva daquele momento, surgem uma porção de boas sequências. Entre elas, o piano sendo tocado no meio da estrada em cima de um caminhão, a cena de encerramento, a reunião dos amigos da família de Bobby e por aí vai.

A melhor sequência do filme é a carona para as duas mulheres (um casal?) que decide mudar-se para o Alasca. Por que? “Porque lá é limpo e não tem essa sujeira toda”. São quase dez minutos de diálogos fenomenais e politicamente incorretos. Uma personagem que tem tanto uma porção de Travis Bickle quanto do personagem do marido traído que Martin Scorsese faz em Taxi Driver.

Cada Um Vive Como Quer sobrevive porque é peça importante para entender o quebra-cabeça comportamental e cinematográfico do início dos anos 1970, mas também pelo puro e simples prazer que ele proporciona a quem o assiste – prazer estético, o que não significa dizer que o enredo não seja cheio de desconforto.

Um filme datado que ainda inquieta

Por Cid Nader (originalmente publicado no Cinequanon)

Estranho e lindo é poder ver ou rever in loco (na tela, seu campo, seu meio) o artista e sua obra, tempos (décadas) depois que suas performances foram alardeadas como inconformadas revolucionárias marcas de um cinema que não coadunava com a malha tramada de forma mais aceitável e confortável, como eram as saídas do tear de produção alienante que representava a grande e condutora indústria do cinema ianque. Mesmo que o autor seja o Bob Rafelson do início dos setenta, e o filme, nada mais nada menos do que a pérola negra, Cada um Vive Como Quer (muito mais apropriadamente, 5 Easy Pieces, realizado em 1970), sensações de possíveis desastres ante tanto espaço de tempo e possíveis datações causavam medos, além de incertezas sobre se valeria entrar nessa jornada de (re)descoberta.

Estranho e lindo é sair numa manhã, de um dia de semana qualquer, da sala do Cine Olido (bem no centro dessa São Paulo por vezes tão mal cuidada) com todas as sensações de inquietações (do autor e da obra) faiscando na íris, e as (in)certezas oralizadas por Robert Eroica (!!!) Dupea retinindo no tímpano, para comprovarem que as datações e as genialidades estavam mesmo armazenadas pelo tempo, mas que, enfrentadas, somente (re)acenderam o quanto é bom esse cinema: que estabelece temporalmente os momentos em que fluiu, quase como documento de uma época perdida (época linda e plácida/chacoalhante dos momentos em que o ocidente foi tocado fortemente pelo ideário beatnik); que guardou sob a proteção de várias chaves a imagem de uma “América” que podia ser, tanto o abrigo familiar, quanto os recantos que abrigariam os inconformados ao que estabelecia a educação formal brotada desses núcleos agasalhantes (esses, os familiares); e que entregou no momento uma compreensão novidadeira da narrativa da arte que raramente se viu repetida com tanta capacidade pelos anos seguintes (nem pelo próprio Rafelson – excetuando O Dia dos Loucos, de 1972).

Porque há um Jack Nicholson que dá cara e vida ao contrariante Dupea, com interpretação que jamais poderia ser imaginada para outras feições e trejeitos (como se ele fosse o único ser apto para representar esse personagem – que renega uma família que nem era tão coadunante com o que era a faceta nuclear da América contestada pelos já estabelecidos beatniks, já que era composta por músicos que habitavam as florestas geladas do norte dos EUA, num “fechado” doentio sim, mas doentio lá dentro de sua reclusão), que opta em largar tudo para ir trabalhar num campo de petróleo e que também namora uma garçonete daqueles “mitológicos” restaurantes de comida veloz que tanto impuseram representação concreta de signos de então (junto com a estrada que indicava a oportunidade de um deslocamento constante, seus caminhões – ou trens, em outros casos – e seus motéis, ou os postos de gasolina, ou ainda as primeiras cervejas em lata…). Esse Dupea, que foge de um passado musical culto e tem de trabalhar com o desejo dessa sua “namorada” (temporária, já que a ideia é nunca se estabelecer, nem amorosamente – será?), que quer ser cantora de música “country” e ouve Tammy Wynette insistentemente, o que inferiria imaginá-lo fugindo alucinadamente em busca de algum outro esconderijo, mas que, ao ficar, se faz mais digno de ser criação de Rafelson, já que age de modo mais inesperado ainda do que seu inconformismo sugeriria: se bem que ante a figura (datadíssima) estonteante de Karen Black (interpretando Rayette Dipesto), com sua beleza carnal e cabelos setentistas…

Enquanto a trama desloca o casal em direção ao norte, à casa ancestral da qual fugira Robert, para onde volta na intenção de rever o pai que adoecera, onde reencontra irmã que deveria fugir mas não o faz, o irmão mais conformado com uma pupila/namorada, Catherine Van Ost (sob interpretação da bela cool Susan Anspach) – por quem se apaixona (paixão fugaz, perdida, alucinada e justa ao não seu conformismo) naqueles breves instantes -, reforça na impressão de quem acompanha o filme a sensação de distanciamento à narrativa comum (a das cartilhas): fato já bem estabelecido e determinado desde os primeiros momentos. Essa raridade que poucos conseguiram concretizar como Rafelson faz aqui consiste no abandono da lógica explicativa dos fatos, da preparação ou de alguma bula que explicará os procedimentos passo a passo para uma compreensão que permitirá mergulho mais seguro na história e nas certezas do que irá contar. Os fatos, os dados, vão surgindo e sendo costurados à trama toda (entenda-se aí trama como uma construção costurada que, unida por pedaços, resultará o tecido no todo). E o que surtirá história mais complementada se dará por mescla entre procedimentos técnicos competentes (zooms em olhos, criação de pequenos cenários enquadrados pela captação das lentes, ou panorâmicas amplas revelando a imensidão da natureza gelada, da estrada que se “oferece” novamente para a fuga…) e a compreensão que a mente exigida do espectador terá de buscar.

Como se fosse uma homenagem em arte inventiva ao que pregava o movimento que modificava fortemente desde os 50 todo o modo de ser da juventude do pós-guerra, no ocidente (os beatniks saíram pelo mundo, beberam vinhos baratos e cervejas de lata, alguns comeram comidas vegetarianas e trouxeram à baila os orientalismos e a busca pela natureza pura – há no filme o casal de garotas que vai ao Alasca para tal vivência -, enquanto não se cansavam de trabalhar em empregos menos nobres só para juntarem mais um trocado, indo em busca de um novo trem de cargas ou de um caminhão para continuarem seu ritual de desapego), a aparente desorientação construtivista de Cada um Vive Como Quer na realidade configura-se quase como um truque, como uma enganação dos que o veem de forma mais veloz. Porque a profundidade dos relacionamentos (que é até mais visível e constatável) é tão densa quando a elaboração que aparenta ser amontoado de situações: a estrutura que exige raciocínio do espectador orienta-o sutilmente para a compreensão, pois na acumulação das partes, percebe-se, com atenção, que não ocorreram solavancos e que as costuras são limpas e azeitadas. E resta lindamente a sensação de um filme de uma época que só poderia ser aquela, com cores que só poderiam ser dela (num belo trabalho de restauro), e com clima muito próximo (na idade, nos anos) dos momentos mais importantes na mudança de estruturas e comportamentos da sociedade ocidental.

Quando Vincente Minnelli e Bob Rafelson se encontram

Por Sérgio Alpendre (originalmente publicado no Chip Hazard)

Cada Um Vive Como Quer é o Deus Sabe Quanto Amei da Nova Hollywood. Os paralelos são incríveis.

Jack Nicholson é um ex-pianista, assim como Frank Sinatra é um ex-escritor.

Ambos estão desiludidos com a vida, e se envolvem com mulheres tolas (“que não sabem nada mas entendem tudo”, João Bénard da Costa).

E se apaixonam por mulheres inatingíveis (apesar de terem experimentado o prazer com elas). Voltam para o lugar onde cresceram por imposição das circunstâncias.

O final de um é trágico, e o plano final é de uma maestria incrível. O final do outro é marcado pela desesperança, mas ao menos a mulher tola estará livre e não será sacrificada. Só que ela pode demorar para entender isso.

Até ontem, quando revi o excelente Cada Um Vive Como Quer, nunca havia imaginado um paralelo entre Bob Rafelson e o grande Vincente Minnelli. Mas tal paralelo, nestes dois filmes, é claro como os ambientes que abrigam boa parte das tramas.

O filme de Rafelson estreia amanhã, em horários especiais, no Cine Olido.

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