32º Cine Ceará: “Infantaria”

*Raiane Ferreira

Joana está prestes a completar 10 anos e brinca como uma criança que já quer ser uma jovem adulta. Seu irmão, Dudu, vive querendo chamar atenção da mãe e da irmã pela insatisfação de não ter um pai presente. No dia do aniversário da garota, Ludmilla, mãe de Joana, prepara sozinha uma festa do jeito que a menina quer. Verbena, por sua vez, que nem sabia da festividade, chega pedindo ajuda vinda quase de lugar nenhum. 

Laís não entrega as informações por completo, mas conseguimos entender que Verbena, de apenas 16 anos, está grávida e toma uma pílula abortiva. Curiosa, Joana observa tudo sem entender de fato o que está acontecendo e segue vivendo em seu mundo colorido de criança, esperando a chegada de um príncipe encantado em seu cavalo branco. Porém quando finalmente beija seu amado na lagoa, uma nova nova realidade surge.

A diretora Laís santos Araújo utiliza da fantasia infantil para construir a estética deste trabalho. Nisso, se vale das cores e de uma atmosfera mágica para incorporar a vida de uma menina de 10 anos. Apesar dessa proposição lúdica, há sempre o resquício de uma violência que surge fora da tela. Ela não precisa aparecer no filme para sabermos que ela existe. Tudo o que “aparece” no fora de campo reafirma essa força indeterminada que oprime aquelas personagens femininas.

"Infantaria" (2022), de Laís Santos Araújo
“Infantaria” (2022), de Laís Santos Araújo

Algo que Laís não também preserva é o tempo dos acontecimentos, seja no trajeto da menina para chegar na beira do lago ou em uma ligação telefônica. Alisa a essa construção, notamos igualmente essa lógica de contraste das realidades de Joana e Verbena. Uma deseja crescer logo, a outra é forçada a assumir compromissos adultos de um dia para noite. E no muito disso temos a figura da mãe que não aparece como um ser opressor, ma sim, uma mulher que entende a carga que seu gênero possui, mesmo em um corpo infantil.

No desejo de se tornar mulher, Joana vai entendendo aos poucos os papéis de gênero e tudo o que eles acionam nos corpos. Mas tudo ainda é nebuloso, já que a mãe não explica para ela sobre o que significa ser uma mulher em um mundo patriarcal. E como quase toda menina que cresce no Brasil, esta conversa sequer acontece. Na decorrência disso, o mundo vai se encarregando de dizer sobre as realidades do feminino de forma dura e às vezes dolorosa, como vemos no filme. A dor e o choro destas mulheres, que só ouvimos em um extracampo, se torna a única possibilidade neste desfecho rumo a um novo enredo na vida das meninas. 

Noutra perspectiva, reside Dudu. Por meio de um travelling revelador de tantas coisas no desfecho da narrativa, se sedimenta uma ingênua ameaça,  retrato de um país vulnerável em seus valores. A pausa dramática que ocorre antes da última palavra dita no filme, por sua vez, coloca realmente em primeiríssimo plano o terror que o patriarcado carrega desde que o mundo assim se entende.

Pensando nisso, podemos perceber claramente que, neste filme, o olhar feminino conta muito para o seu desenrolar com um todo. Temos uma obra que fala de questões de gênero e daquilo que atravessam esse jovens, seja a precocidade dos seus desejos, a falta do paterno e o aborto. A matéria-prima de Infantaria é o corpo, pois tudo o que estas mulheres passam se dá pelo fato de serem mulheres e existirem como tal.

*Raiane Ferreira fez parte do Júri Abraccine.

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