Os futuros do pretérito e do presente nos curtas do 14º Olhar de Cinema

por Nayara Reynaud*

"Ontem Lembrei de Minha Mãe" - Divulgação
“Ontem Lembrei de Minha Mãe” – Divulgação

Promessas de futuro que trazem retrocesso ou, como diria Cazuza, o futuro que repete o passado. Esse foi o tom dos questionamentos, especialmente em relação ao meio ambiente e também sobre aspectos sociais, apresentados pelos curtas-metragens na mostra Competitiva Brasileira do 14º Olhar de Cinema. Por sua vez, estes oito filmes projetam futuros ancestrais, bem pautados nesse redescobrimento do Brasil em sua pluralidade que é observado no cinema nacional contemporâneo, em particular desta metragem que permite um maior acesso aos meios de produção de uma arte que é, na prática, muito custosa e historicamente restrita a determinados grupos.

A Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) fomentou um processo de interiorização visto nos curtas brasileiros selecionados ou não pelas curadorias dos festivais ao redor do país nos últimos anos, cujo efeito foi ainda tímido entre os longas-metragens. Os primeiros frutos da Lei Paulo Gustavo (LPG) começam a aparecer nas seleções de 2025, surgindo em maior volume nos eventos cinematográficos de junho, a exemplo da mostra paralela que levou o nome da lei no 29º Cine PE e do Olhar com seu recorte nacional – metade dos títulos teve seu financiamento através da LPG, mais um é fruto de edital público e os outros contam com apoios privados, do Terceiro Setor ou vaquinha virtual – e também local na Mirada Paranaense, em que há indícios da reafirmação deste fenômeno e uma possível expansão. Cabe a observação desses resultados e do que virá nos próximos Arranjos Regionais da Ancine, mas igualmente o olhar atento do setor, incluindo a própria crítica cinematográfica, para os editais de suas respectivas cidades e estados que possam deturpar o caráter dessas políticas e/ou não promover uma diversidade real das cabeças criativas, técnicas e administrativas da indústria audiovisual, além da necessidade de continuidade sempre reforçada por diversos realizadores durante debates ou entrevistas ao longo do festival curitibano.

Tal digressão é imprescindível para contextualizar como esses curtas chegaram até às telas da Cinemateca de Curitiba, onde ocorreram suas sessões sempre lotadas, e as descentralizações de cenários e discursos por eles promovidas.

“Ontem Lembrei de Minha Mãe” (2025), o filme agraciado pelo Júri Abraccine, e “Fronteriza” (2025), premiado pelo Júri Oficial, partem da mesma região de Foz do Iguaçu e do resgate de impactos, convenientemente esquecidos, da construção da usina hidrelétrica de Itaipu. Na época de seu projeto até sua inauguração, o cineasta Frederico Füllgraf retratou os dilemas e consequências para o meio ambiente que seria transfigurado e para as populações que foram removidas de suas terras na imensa área a ser alagada pelas águas represadas, respectivamente no ensaio poético do curta “Quarup Sete Quedas” (1983) e no média/longa documental “Desapropriado” (1983), ambos exibidos na mostra Olhares Clássicos do evento. Quatro décadas depois, o debate volta à tona no cinema paranaense, através de docentes e alunos que conheceram tais questões ao adentrarem o ambiente da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

O professor Leandro Afonso, diretor de “Ontem Lembrei de Minha Mãe”, dá voz aos guaranis, povo indígena que habitava a região das Sete Quedas e até hoje não recebeu as terras às quais tem direito pela supressão de seu território original. Através do microfone de um podcast, ecoam as digressões do protagonista (Arturo Rolando Gerez) sobre a importância que sua mãe e outros ancestrais davam a toda natureza que os cercavam e ao senso de coletividade frente à destruição e ao descaso que ele observa na sociedade atual com aquilo que lhes é tão essencial, embate vislumbrado pelas sequências de imagens que ilustram seu discurso. Já Nay Mendl, graduado na instituição e que dirige com Rosa Caldeira a coprodução paulista-paranaense “Fronteriza”, utiliza a tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina como alegoria para refletir, questionar e bagunçar fronteiras de gênero, familiares e cinematográficas na história de um jovem trans (o próprio Mendl) que carrega para Foz a sua câmera e a expectativa de saber quem é o pai que nunca conheceu, mas encontra um sentimento de familiaridade que lhe é inédito com um novo amigo paraguaio (Diegoló).

"Fronteiriza" - Divulgação
“Fronteiriza” – Divulgação

Se ambos os títulos do Paraná não querem deixar este passado ser novamente esquecido, o paraibano “A Nave que Nunca Pousa” (2025) até remonta à história, mas para ecoar uma problemática semelhante do presente que acomete ali e outros estados nordestinos invadidos pela promessa de um progresso não tão sustentável quanto aparenta. Outras produções recentes da região, a exemplo dos longas pernambucanos “Nós, que Ficamos” (2020), documentário de Eduardo Monteiro, e “No Caminho Encontrei o Vento” (2024), ficção de Antônio Fargoni, vêm abordando de forma direta ou indireta como os parques eólicos instalados para aproveitar os fortes ventos que sopram pelo Nordeste têm gerado consequências nos habitantes ao redor ou dentro dessas áreas, a mais notável sendo a perda de audição pelo barulho alto e constante das turbinas. Para além do uso pontual da performance, o diferencial do curta da diretora Ellen Morais está tanto no seu jogo híbrido com a ficção científica para ilustrar o encantamento e simultâneo medo gerado por aquela invasão em seu território quanto no resgate do clássico “Aruanda” (1959), não somente como reverência metalinguística ao trabalho de Linduarte Noronha, mas como observação e comparação do que era e como está o cotidiano daquela comunidade quilombola no sertão da Paraíba.

Ainda dentro das discussões ambientais, o mato-grossense “Maira Porongyta – O Aviso do Céu” (2025) traz a cosmologia Kaiabi como dispositivo narrativo para debater a emergência climática no planeta Terra. Em seu terceiro filme, a cineasta Kujãesage Kaiabi, que coordena o coletivo audiovisual Ema’e Jeree no território indígena do Xingu, estabelece uma mise-en-scène sóbria e uma fotografia em chiaroscuro que constroem a aura etérea dessa reunião de divindades preocupadas com o rumo dado pela humanidade para seu próprio lar. Enquanto isso, o realizador paulista Vinícius Silva viaja mais uma vez pelo país e vai ao Acre observar o cotidiano da reserva extrativista Cazumbá Iracema sob a perspectiva da moradora e artesã Leonora Maia em “Mais Um Dia” (2025), no qual se pauta pelo próprio tempo amazônico na defesa daquele bioma e estilo de vida.

O ambiente urbano, por sua vez, ganha a tela nas duas obras cariocas da seleção, em que as temáticas sociais foram destaque de seus discursos bem diretos. “Girassóis” (2025) foi premiado pelo público do Olhar, que se identificou com a proposta do segundo curta da dupla Jessica Linhares e Miguel Chaves em compor uma história de vida ao que seria um simples nome de uma vítima na manchete de jornal, se inspirando livremente em casos reais para discutir os efeitos da jornada exaustiva do trabalhador brasileiro, do dia-a-dia opressor em uma metrópole caótica e de uma sociedade indiferente aos seus indivíduos através do trabalho notável de Wilson Rabelo como um funcionário ainda não aposentado de uma rede de supermercados. “Seco” (2025) também parte de um microcosmo familiar e, principalmente, da psique de um homem idoso (Nando Cunha, expressando mais uma vez sua verve dramática no cinema) cujos atos e omissões acumulados ao longo da vida lhe pesam a mente, mas não o suficiente para refletir sobre suas responsabilidades e os malefícios desse ideal de masculinidade que tentou sustentar, nesta estreia na direção potente, ainda que imprecisa, do escritor Stefano Volp, que se baseia em um dos contos de seu livro “Homens pretos (não) choram” (2022).

“Americana” – Divulgação

Neste recorte curatorial tão denso e uniforme dentro da sua pluralidade, aparentemente, o paraense “Americana” (2025) surge como um ponto fora da curva. Vencedor do Prêmio Especial do Júri, o filme de Agarb Braga, artista que transita por várias áreas como a música e a literatura, apresenta um tom cômico escrachado, próximo de um esquete televisivo e também de uma websérie não só por ser estrelado por Leona Vingativa, embora apresente uma execução primária em momentos pontuais. No entanto, as linguagens da internet e do universo queer são utilizadas para fazer desta comédia uma ode aos laços afetivos, apesar dos desafios que toda a velocidade de informações imprecisas e discussões banais desses tempos líquidos trazem para a manutenção desses vínculos de irmandade dentro de uma comunidade, seja LGBTQUIA+ ou/e periférica.

Além disso, abrindo um parêntesis para citar dois dos curtas premiados em outras mostras do Olhar 2025, ficou claro que o humor também foi usado como ferramenta por esses novos realizadores e louvado pelos jurados e espectadores. A comicidade pauta o registro híbrido do cotidiano interiorano no vencedor do Prêmio AVEC-PR entre os títulos da Mirada Paranaense, “Interior, Dia” (2025), no qual o retorno à cidade natal de Sapopema, no norte do Paraná, do cineasta/personagem Paulo Abrão/Paulinho, que divide a direção com Luciano Carneiro, estabelece um anacronismo muito familiar à plateia de qualquer estado – que se rende totalmente na cena do gás, por exemplo. A diversão do final da infância no português “Conseguimos Fazer um Filme” (2024), eleito o Melhor Curta da Competitiva Internacional, é fruto de um processo coletivo da oficina para jovens conduzida pela diretora Tota Alves na Quinta do Loureiro, bairro periférico de Lisboa que surgiu para realojar moradores de outra área subdesenvolvida e depois gentrificada, e resulta no retrato metalinguístico do grupo de pré-adolescentes capitaneado pela cativante Maria Inês sobre os afazeres, espaços, pessoas, músicas – funk, por sinal e para alegria do público – e desejos que ocupam sua rotina.

Afinal, tais filmes reforçam como dar condições para que mais pessoas possam brincar de fazer cinema fortalece e renova a própria arte.

*Nayara Reynaud foi presidente do Júri Abraccine no 14º Olhar de Cinema.

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