Lumen | Um festival em busca de sua identidade

Por Luiz Baez

A aurora de um novo festival desperta tanto entusiasmo quanto dúvidas que, em parte, podem ser respondidas por seu projeto curatorial. De acordo com Pedro Tavares, colega de Abraccine, e dos diretores Gabriel Papaléo e Waleska Antunes, o trio concebeu o Lumen com o objetivo de, por um lado, ampliar as janelas de distribuição de obras independentes e, por outro, democratizar o acesso a filmes alheios aos moldes comerciais. Assentada nesse binômio, a primeira edição do evento visava construir sua identidade ao mesmo tempo que, metalinguisticamente, privilegiava narrativas permeadas pelas incertezas de uma busca. Tal tema, recorrente ao longo da semana de exibições, está no centro de dois curta-metragens programados já na tarde inaugural. Se, em Não gosto de cinema, Pablo Pijnappel literalmente persegue pelas ruas de Berlim um personagem errante, que se contrapõe à sua captura física e imagética, é a partir de uma metáfora que Gustavo Jahn norteia sua pesquisa: por trás do título Em busca de S., encontra-se por assonância o próprio cinema, cujas transformações ele incorpora formalmente na materialidade da fotografia em película.   

Em um presente invadido não só pelo digital, mas também por outros suportes audiovisuais, o que resta desta arte além de um fonema que se aproxima da letra “s”? Contra a saturação do visível, sua repetição e sua interpretação podem gerar diferenças. Não é outra a estratégia de Roberto Baggio, premiado pela Abraccine, cujas imagens de arquivo televisivas partem metonimicamente de lembranças da infância do realizador, Henrique Cartaxo, e se estendem, por meio da montagem, a um discurso sociopolítico sobre o Brasil. O mote das memórias e reminiscências perpassa ainda outros três curtas-metragens projetados no mesmo dia. Tanto A morte da aparição, dirigido por Lila S., quanto Alheio, dirigido por Pedro Paulo Araújo, abordam o esquecimento e o desaparecimento por um prisma entomológico: enquanto este observa o conflito entre permanência e transformação sobrepondo vistas microscópicas de um inseto a planos abertos de paisagens, aquele equipara poeticamente a metamorfose das borboletas ao efeito corrosivo do tempo sobre a memória e sobre as imagens. Tal desgaste que perturba a identificação e o reconhecimento imediatos culmina, enfim, em Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, filmado com uma película vencida cuja deterioração alude à memória do movimento referido pelo título da obra, assinada coletivamente por Lucas Parente, Weyna Macedo, Adeciany Castro e Mariana Smith.

No dia seguinte do festival, esta desestruturação da identidade ganhou corpo na protagonista de Era Vânia, adaptação do conto homônimo de Natércia Pontes, em que uma única atriz, dirigida por Ticiana Augusto Lima, encena a tensão entre os princípios de prazer e de realidade de sua personagem cindida em duas. Se há um embate entre o real e o virtual, ou entre aquela mulher e os seus desejos, esse descompasso subjetivo é acentuado em duas obras que se inserem no contexto contemporâneo de redes sociais. Em Caravana da coragem, amigos reunidos em uma quadra esportiva se comunicam por mensagens de voz, não obstante a sua proximidade física, para compartilhar sonhos que confundem quaisquer oposições binárias com os pesadelos e com a realidade, especialmente quando Pedro B. Garcia destrói a golpes de martelo a linearidade da montagem e a continuidade da narração. Em Tamagotchi_balé, por sua vez, Anna Costa e Silva explora a crescente solidão e inadequação em um mundo cada vez mais artificialmente conectado.

Contra a distância imposta por esses relacionamentos, os três últimos curtas-metragens resgatam a resistência do corpo. Por um viés cômico, Bernardo Camara registra os amores fugazes de um dia de Carnaval em Um novo balancê; por um viés experimental, Bárbara Bello transita, em Núbia, da virtualidade da pornografia e das projeções em direção ao percurso sexual por uma cidade ardente em desejo. O vencedor do júri oficial, Feiura comovente, expõe por fim a vulnerabilidade social e afetiva de existências trans, como a de seu diretor, Ultra Martini. Cumprindo sua promessa etimológica, o festival Lumen se encerra, assim, com um filme-ritual que reorganiza liturgicamente a visibilidade de corpos e afetos não hegemônicos, dando-lhes a luz em uma metáfora maiêutica, tal como havia, nos outros dias, deixado reluzir o impossível no regime do possível e também feito cintilar a memória, iluminando fragmentos de passado outrora na penumbra. Seguindo o tema da busca que permeou suas primeiras sessões, esperamos que o futuro do festival permaneça norteado por este jogo de luzes.

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