Por Ivonete Pinto
A surrada expressão “parece que foi ontem” cabe bem nesta história que começou logo ali no ano de 2011. Foi durante o Festival de Paulínia, descontinuado mais tarde pelas idiossincrasias locais, que um grupo de menos de 20 profissionais se reuniu, já com propósitos claros, e definiu um nome que pudesse ser dito como acrônimo. Em linguagem de domingo, pudesse ser lexicalizado.
De fato, a história da organização da critica começou uns 20 anos antes, com a tentativa frustrada de criar uma associação nacional neste país tão grande e, na época, tão sem internet. A comunicação entre os críticos espalhados nas cinco regiões do Brasil foi definitivamente facilitada com a internet. Naturalmente, foi preciso que um grupo de criticas e críticos tivesse vontade política para se mobilizar e preencher a lacuna de tantas décadas. Anterior à Abraccine, havia a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), a Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e a mais longevidade de todas, a Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Aprendemos um pouco com cada uma delas a, entre outras coisas, criar estatuto e estabelecer critérios de filiação.
Mas tínhamos desafios enormes sobre os quais não havia experiência prévia. Era necessário conduzir todo um debate, polemizante por natureza, sobre quem poderia ser considerado crítico, afinal, as novas mídias nos obrigavam a reconhecer novos perfis de atuação. Além do mais, nos propusemos a criar júris nos principais festivais de cinema do País e, para isto, tínhamos que convencer os mesmos de que tínhamos capacidade de organização, de que nosso prêmio teria relevância e faria diferença. A mesma relevância que um prêmio Fipresci possuía para os festivais internacionais de categoria A. Aliás, sermos filiados, como entidade, à Federação Internacional de Críticos de Cinema passou a ser também uma meta, que alcançamos em 2016. Hoje nossos críticos participam de júris em festivais como Cannes e Berlim, sempre representando a Abraccine.
Na lista de nossos fatos heroicos – e perd em nossa ausência de modéstia –, podemos lembrar da publicação de livros (sim, livro, aquele artefato de papel impresso, que demanda investimento e muito tempo de produção e hoje já temos xxx titulos); da promoção de vários cursos de formação, objetivando alargar a diversidade da crítica; da tradução de textos inéditos em português; da militância em defesa do cinemaa brasileiro através da participação em comissões e da publicação de dossiês para abastecer nosso site. Tudo isto sem falar do feijão com arroz que ė o prêmio Abraccine para longa-metragem nacional e estrangeiro e para curta-metragem. Feijão com arroz porque é da rotina das entidades de críticos escolherem os melhores do ano, mas que gera o trabalho de muitas mãos. Sempre, claro, com o ingrediente do debate interno, envolvendo um grupo que hoje está quase em duas centenas de filiados.
Nos permitimos o uso do termo “heroico”, pois todas essas atividades são realizadas de forma voluntária. E a coisa toda só dá certo e segue em frente por uma razão muito simples: amamos o que fazemos. Vibramos com cada filme bom e até com filme ruim, porque aprendemos com ele.
Esses 15 anos da Abraccine demonstram que nossa atividade pressupõe um aprendizado diário, nutrido por esse amor e que não há revolução tecnológica que faça acabar. Que venham mais 15 anos!