Reconhecimento do espaço social: os longas do 26° Cine Ceará

"Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois", de Petrus Cariry

“Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois”, de Petrus Cariry

Cecília Barroso *

A seleção dos longas-metragens da mostra competitiva do 26° Cine Ceará, exibida de 16 a 22 no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, reuniu títulos bastante diversos entre si. Porém, por mais variados que fossem os registros e as linguagens, a grande maioria dos selecionados tinha em comum a ocupação do espaço dentro de uma sociedade já delimitada.

Seja pela ruptura ou adequação, pelas referências ou traumas passados, todos os protagonistas de seis entre os oito selecionados buscam maneiras de se alocar socialmente, se afirmar enquanto ser dentro de uma comunidade.

Mais próximos do cotidiano estão os dramas “Avó”, de Asier Altuna, e “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”, de Petrus Cariry. Em ambos, duas mulheres rompem com os padrões anteriormente definidos. No primeiro, o que se quebra é a tradição familiar, quando, no interior do País Basco, uma filha enfrenta seu pai quanto à sucessão de um antigo casario. Já no filme cearense, a ruptura é mais profunda. Além de enfrentar seu passado, “Clarisse” rompe com a estrutura de patriarcado a que ela e muitas outras mulheres se submetem há anos no país, e mais especificamente no Nordeste.

No extremo oposto do mesmo machismo, a questão social pode ser encontrada na comédia uruguaia “Clever”, dirigida por Federico Borgia e Guillermo Madeiro. No filme, o personagem título precisa enquadrar-se em um padrão preestabelecido, precisa ter algum sucesso para se afirmar enquanto ser relevante naquela sociedade. Mais interior do que exterior, há essa busca intensa por adequação e aceitação. O que também se percebe em alguns dos personagens secundários.

No documentário “Casa Blanca” não há ruptura, mas uma permanente necessidade de inclusão. Eticamente equivocado, o longa-metragem apresentado como conclusão de curso pela polonesa Aleksandra Maciuszek expõe a vida de uma senhora idosa e seu filho adulto portador de Síndrome de Down em um pequeno vilarejo de pescadores. As brincadeiras de mau gosto constantes e o apoio dos vizinhos mostram que existe uma integração, mas a sensação de que ela precisa ser conquistada dia a dia, principalmente pelo jovem, não deixam o filme por um minuto sequer.

O documentário “Menino 23”, de Belisário Franca, já fala sobre traumas e violências, e as consequências destes na identidade de quem sofre os abusos, como a constante busca por espaço social. Ao transpor para a tela a pesquisa do historiador Sidney Aguilar sobre órfãos negros enviados a uma fazenda que servia como campo de trabalhos forçados no interior de São Paulo, no auge do eugenismo no Brasil, o filme fala de questões étnicas e sociais existentes até hoje e demonstra a dificuldade de recolocação social de crianças vítimas da violência.

Nem mesmo a seleção mais estranha da curadoria, o panamenho “Salsipuedes”, de Ricardo Aguilar Navarro e Manolito Rodriguez, foge ao tema. Mesmo com todos os defeitos do longa, é fácil perceber que o conflito social está tanto dentro do personagem, filho de um boxeador bandido e mandado para os Estados Unidos ainda criança, quanto daquela comunidade pobre, periferia da rica Cidade do Panamá.

Longe do tema, mas prenúncio do mesmo 

Até mesmo o drama épico “Epitáfio”, dirigido pelos mexicanos Youlene Olaizola e Rúben Imaz, acaba resvalando na mesma questão, ainda que não fale sobre ela. O filme narra a jornada de Diego de Ordaz na subida do monte Popocatéptl. É lá que o explorador encontra o  enxofre que fará com que os espanhóis derrotem o império asteca, e prenuncia o estabelecimento, à força, de uma nova ordem social. Os problemas decorrentes disso são visíveis até os dias atuais.

Ainda que se possa buscar alguma ligação com o tema na busca de um dos personagens por sua origem, o longa-metragem “Maresia”, dirigido por Marcos Guttmann é o que mais se afasta do assunto. O filme é uma adaptação do romance Barco a Seco, de Rubens Figueiredo, e se divide em duas linhas temporais para contar as histórias de um antigo pintor galego e de um especialista em suas obras.

* Cecília Barroso é editora-chefe do site Cenas de Cinema; membro do júri Abraccine no 26º Cine Ceará.

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