Já visto, jamais visto

javisto

Sérgio Alpendre*

A vida também é feita de coisas deixadas pelo caminho. Muitas delas deixam de fazer sentido, ou se mostram inviáveis diante de nossas incertezas e contradições. Quem não teve de abandonar sonhos, desejos, projetos, é porque nunca sonhou, desejou, projetou, nunca quis entender para que diabos viemos ao mundo.

Já Visto Jamais Visto procura dar um sentido a uma série dessas coisas, alternando-as com outras (em menor número) que serviram à finalidade original, que fizeram parte de alguma obra terminada e lançada em sua época. Ou seja, trechos de filmes inacabados se juntaram a imagens de filmes finalizados (alguns deles já devidamente estudados, como é o caso de Bang Bang). Uma tentativa de reanimar algo desfalecido, esquecido, quase perdido, pela companhia de obras vivas, no caso, vivas pela mente daqueles que as viram e foram afetados por elas.

Imagens já vistas, assim, dialogam com imagens jamais vistas. Imagens vistas, montadas de modo a criar um sentido jamais visto, com imagens não vistas, montadas para dialogar com as que foram vistas. A ideia conjuga liberdade e investigação, mais um punhado de outras coisas difíceis de precisar. Investigação do passado, do que não deu certo, do que ficou pelo caminho e do que foi realizado e amado. Dos amados, dos que o amavam, dos que amam. Coisas deixadas pelo caminho agora adquirem um novo sentido, percorrem um outro caminho. Cinema antiburocrático, processo de autodescoberta, indagação sobre o que é estar no mundo, sobre o filmar, sobre o lembrar e o esquecer. Um inventário da memória.

O que Andrea Tonacci realiza é uma colagem de tempos, anseios, tentativas e frustrações. Uma busca pelo sentido daquilo que se sobressaiu em meio a um vasto material de arquivo; daquilo que foi escolhido, montado, ajuntado. Imagens que vão de 1958 a 1998, incluindo também filmes familiares e diários de viagem.

Sobram as indagações: quem é esse misterioso cabeludo que aparece com raios e trovões? Tonacci informa que é Sérgio Mamberti, irreconhecível porque jovem, muitos anos antes do famoso mordomo que interpretou na novela Vale Tudo (1988), exibida, até onde sei, também em Portugal. Mas o que ele faz ali? De que filme ele veio? E mais. Por que as crianças carregam armas? Por que a fixação com aquela imagem específica de Cristo, vista na década de 1970 e retomada duas décadas depois (ou melhor, é precisamente o contrário, seguindo a lógica em que as duas sequências foram montadas).

Não são raros os filmes brasileiros recentes que procuram seguir essa estrutura de colagem para investigar o passado. Mas nenhum deles consegue atingir o nível de indagação e investigação da memória que Tonacci desenvolve aqui. Já Visto Jamais Visto não navega pelos mesmos mares de Elena (Petra Costa, 2013) ou A Memória que me Contam (Lúcia Murat, 2012). Tem muito mais a ver com Nem Tudo é Verdade (1986) e Tudo é Brasil (1997), filmes em que Rogério Sganzerla procura entender o Brasil por meio da visita de Orson Welles, no início da década de 1940. Porque desse processo nasce, igualmente, a invenção, fruto de uma enorme inquietação, por certo, mas também da abertura ao que o mundo possa oferecer. Tonacci e Sganzerla, não por acaso, são dois dos maiores inventores do cinema.

Muitas ideias se repetem nessa invenção: dedo infantil no buraco de fechadura, sombras apresentando ou substituindo personagens, a pequena estátua de Cristo, o menino ao piano, o homem misterioso que surge (três vezes) com o raio, a caixa de música do palhaço, a discussão sobre o tempo do filme seguida da capa do livro A Thief of Time (de Tony Hillerman), a chave no vaso, uma criança com uma arma, o fusca vermelho descendo a colina… As sobreposições de imagens também se repetem, e multiplicam o filme, dilatam sua duração, driblam a exigência dos 54 minutos e representam o fluxo de memória que se quer investigar, dentro de uma construção inevitavelmente flácida, rosselliniana em sua essência.

E num golpe rigoroso e implacável, o filme se encerra com uma citação de Il Desprezzo, de Alberto Moravia, lida por Tonacci em algum momento dos anos 1990 e entendida, hoje, como a mais profunda crítica a um estado cinematográfico (brasileiro, decerto, mas ousaria dizer mundial) provavelmente irreversível: “(…) naturalmente pode acontecer que o filme seja de qualidade superior, que o diretor e os colaboradores estejam ligados já em precedência de mútua estima e amizade e que, em suma, o trabalho se desenvolva naquelas condições ideais que possam verificar-se em qualquer atividade humana, porquanto ingrata; mas estas favoráveis combinações são raras, como, de fato, são raros os bons filmes”.

Já Visto Jamais Visto é um enigma. Daqueles que despertam em nós o desejo de decifrá-lo, ao menos em parte, e mesmo sabendo que grande parte de sua força vem da impossibilidade de compreendê-lo totalmente. É o grande filme brasileiro (latino-americano?) desta década.

* Sérgio Alpendre é crítico e professor de cinema; texto originalmente escrito para o jornal dos Encontros Cinematográficos, Fundão, Portugal e disponível na revista Interlúdio.

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