MAMATA, um filme brasileiro

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Por Marcelo Ikeda*

Woody Allen dizia que tudo o que um cineasta precisa é de um pouco de autoestima. Quis o destino que, depois de quase uma década de trabalho, o CUAL – e o cinema de Marcus Curvelo – tivesse o reconhecimento do maior festival de cinema do país e assim que saísse do limbo e passasse a ter visibilidade. O milagre – mais que o da descoberta – é que o cinema de Marcus Curvelo se potencializasse e não se domesticasse com essa repercussão. O cinema do CUAL passa por uma miríade criativa. E esse milagre deve ser comemorado por diversos motivos, entre os quais elenco: i) o cinema de garagem não morreu; ii) é possível fazer cinema livre na Bahia, onde (copio a expressão de Edgard Navarro) ninguém para em pé.

MAMATA prossegue a trajetória do CUAL no cinema e é um prolongamento da trajetória de Marcus Curvelo desde que encontrou um lugar próprio no cinema. Algo entre Com fome no fim do mundo e Feio, velho e ruim. Ao longo de anos, Curvelo vem encontrando o formato de um cinema artesanal, em que, por meio de uma comédia assumidamente pobre e caseira, possa encontrar um meio de encenar o fracasso, combinando uma enorme autocrítica pessoal com uma visão social do país. A crítica do mundo do trabalho já está presente desde Com fome no fim do mundo, mas em Feio, velho e ruim, Curvelo encontrou a síntese do seu cinema, uma forma frontal de autoencenação em que ele interpreta um personagem do seu próprio fracasso com um humor sarcástico. Em Neandertais vários elementos de classes sociais distintas já se cruzavam; em Ótimo Amarelo a solidão e o fracasso individual eram organicamente combinados com a crítica de uma visão desenvolvimentista da cidade de Salvador.

O Regresso de Saturno era um filme sobre uma separação; Mamata é sobre como viver sozinho. Seu anarquismo, sua solidão, sua autocrítica, sua assumida pobreza, sua comédia sem graça (desgraçada), seu rigor combinado com laconismo o colocam num lugar singular no cinema brasileiro.

Curvelo se oferece como um João Cesar Monteiro do cinema jovem brasileiro. Seu cinema é o mais genuíno herdeiro da primeira fase do cinema do Alumbramento, ou melhor, do cinema dor Irmãos Pretti, na fase de curtas como Sabiaguaba. Na fase anterior ao Alumbramento se perceber como “algo sério” e soçobrar sua relevância, deixando-se levar pelas ondas de curadoria do cinema internacional. A forma (frontal e pobre) como Curvelo se oferece ao filme me parece profundamente herdeira do cinema dos Irmãos Pretti em sua melhor fase. Mas sem os arroubos do intelectualismo que acabou sufocando o cinema dos gêmeos.

A duração (quase 30 min), sua assumida pobreza, sua recusa aos mais fáceis discursos moralizantes do que é o país hoje, e especialmente sua profunda solidão, ou seja, sua humanidade (e não humanismo), sua honestidade, marcam a opção ética de seu realizador, expõe a beleza de suas opções. A forma como o grão e a noite surgem no filme, sua ambiguidade, o pertencimento e a recusa de tudo quanto é possível marcam o discurso do filme, sua ironia, e sua atualidade. Vanusa e Vampeta. Brasília e Salvador. O mar e a casa.

Esse filme belamente desigual e trôpego, arriscado e sincero, como é raro vermos entre os jovens realizadores, que agora só querem “chegar a algum lugar”. MAMATA é uma prova que o cinema de garagem brasileiro continua vivo.

* Marceo Ikeda é professor e crítico cinematográfico. Texto originalmente publicado no Cinecasulofilia.

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