Olhar de Cinema e o ano que vivemos em quarentena

Susy Freitas*

No Brasil de 2020, a leitura de mundo e a leitura de obras audiovisuais por parte de quem as consome encontra uma forte tensão: o país descobriu, não tão de repente, que a realidade objetiva só é palpável na medida em que é mensurada por nossos sentidos, sejam os físicos, sejam os discursivos. Nas teorias do cinema e da comunicação em geral, nada disso é novidade: são muitas as correntes de pensamento que descrevem processos dentro dessas tensões, tais como a Semiótica, a Análise do Discurso, escritos de Serguei Eisenstein ou Hugo Mauerhofer, para citar apenas algumas possibilidades. Mas agora, para o “bem” ou para o “mal” – assim, entre aspas, deixo ao critério do leitor suas definições de preferência para os dois – o brasileiro passou a vociferar o que tal obra quer dizer como quem escolhe partido ou time de futebol, e, por vezes, até mesmo sem ter entrado em contato com seu conteúdo.

É partindo do princípio de que as obras devem ser consumidas para que se criem juízos sobre ela que a experiência de fazer parte do Júri da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) no Olhar de Cinema deste ano me fez pensar sobre quem viu os filmes do evento em 2020, e como. Parto daí porque as condições adversas dadas pela pandemia de Covid-19 tiveram um movimento duplo: por um lado, houve um alcance expressivo a pessoas fora da região Sul-Sudeste de forma mais democrática graças à internet. Por outro, pode-se dizer que esse consumo se deu fora do ideal a certos filmes.

Tomemos uma obra como o longa brasileiro “Luz nos trópicos”, épico dirigido por Paula Gaitán. Deitada na rede na sala do apartamento, iniciei o desafio, e uma hora e meia depois, era claro para mim o quanto eu perdia da experiência por assistir ao filme num ambiente que não o da sala de cinema, entre estranhos, na total escuridão, envolvida pelo sons e pelo pouco que a luz da tela nos entregava como visível além do universo que o filme nos entrega. A formação de sentidos de todo filme na mente do espectador depende da percepção de seu público, mas alguns explicitam que certos elementos do audiovisual são mais centrais que outros. No caso do “Luz…”, me instiga uma revisão em outro momento, mais seguro para a sala de cinema, para que eu, assim, possa senti-lo de forma diversa no futuro. E por ter sentido isso como espectadora, me questiono sobre a natureza das percepções de outros tantos que assistiram ao filme no evento de um jeito mais ou menos parecido com o meu.

Apesar desse aspecto na deficiência de fruição, o fato de que apenas cinco reais e uma conexão de internet razoável separavam qualquer internauta desse filme me pareceu fantástico. Eu mesma nunca tinha participado do Olhar de Cinema, assim como e vários outros, por questões logísticas – ir por conta própria ou esperar que um evento banque um júri saindo do Norte é, sem dúvida, um dos maiores fatores de complicação para isso, dado o preço exorbitantes das passagens aéreas num mundo sem promos no meio de uma pandemia. Então paro e penso que grande parte de minha experiência cinéfila se deu via processos de experiências um tanto deficitárias no momento de recepção das obras – baixando filmes piratas cujas legendas, por vezes, eu mesma ou algum amigo produzia; alugado VHS, Dvds e Blurays; assistindo aos filmes na TV a cabo e, agora, em serviços de streaming. Para quem cresceu nos anos 1990-2000 em Manaus, as salas de cinema nunca foram palcos centrais de cinefilia, posto que concentravam apenas os lançamentos “óbvios” e os poucos cinemas de rua dos anos 1990 não sobreviveram aos 2000. Em 2019, o Nexo apresentou uma reportagem construída a partir de dados do Ministério da Cultura, o qual aponta que estados como Amazonas e Rio Grande do Sul tem pouco mais de 50% de sua população morando numa cidade com cinema. 15 estados tinham menos de 50%. No fim das contas, um Olhar de Cinema online casa muito com a realidade de nosso país, com ou sem pandemia.

Por outro, penso no resultado da Pesquisa de Mídia da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (2016), a qual aponta que o uso da internet se dá majoritariamente via celular – quase 91% dos respondentes marcou essa opção. O número em 2020 provavelmente é até maior. Será a realidade de parte do público de “Luz nos trópicos” e demais filmes do festival? Confesso que não tenho o costume de ver nada além de vídeos curtos no celular, então me instiga pensar também como pode ter sido a experiência de quem participou do Olhar de Cinema nessas condições. Que a cinefilia nunca se deu a partir de um só dispositivo, persistindo na era do streaming, isso não temos como discordar.

Ainda pensando nessa confluência de passado e presente cinéfilo, assisti ao mexicano “Los lobos”, de Samuel Kishi, pelo Olhar no intervalo do almoço, no trabalho. Jogada numa confortável cadeira de escritório acolchoada e os pés estendidos em outra, vivi essa experiência de festival atípica totalmente imersa – vale lembrar que, em Manaus, a porcentagem de pessoas trabalhando em home office nesta altura do campeonato é baixíssima, infelizmente. Apesar de ter a consciência de que, tal como o filme de Gaitán, algo do consumo na obra naquelas condições se perdia, a sensação de incompletude foi muito mais suavizada. Claro que ajuda a duração e estrutura do filme de Kishi, mas não se trata apenas disso; a própria memória afetiva de assistir a filmes sozinha alugados na finada Look Vídeo num videocassete Panasonic na infância pareceu ter sido ativada, e o que seria ausência (de condições ideais) se tornou presença de uma outra coisa (da sensação, ainda que parcial, de ver o filme com “olhos de criança”, tal como os protagonistas de “Los lobos”). 

Foi também curioso ver um filme cuja narrativa se debruça tanto ao isolamento social de personagens à margem quando essa questão é hoje emergente a todas as camadas sociais – ou, pelo menos, aquelas que buscam seguir as recomendações de saúde que o momento exige. Mais uma vez, diferentes momentos se intercalam: a diegese da trama, o momento histórico no plano real que o filme busca representar e o tempo presente de quarentenas, isolamentos e distanciamentos. Vanoye e Goliot-Lété, cujos escritos gosto bastante de usar para iniciar meus alunos na análise fílmica, além de Marc Ferro, são alguns dos autores que se debruçam sobre esse enlace de cinema e História, mas nunca imaginei viver o enlace que 2020 nos jogou dentro.

O júri Abraccine do qual fiz parte, juntamente com os críticos Daniel Herculano e Stephania Amaral, escolheu “Los Lobos” como o vencedor do Prêmio da Crítica. Penso que, por mais que tenhamos lançado um olhar analítico para cada filme, como nos é de costume, aplicamos também um elemento essencial, nada científico, sem o qual ninguém consegue analisar uma obra artística: a emoção. Essa colocação não é minha. Está presente em inúmeros escritos de autores da área de cinema e crítica cinematográfica. Ismail Xavier, por exemplo, reúne vários que abraçam essa perspectiva em seu “A experiência do cinema”. Em linhas gerais, quero dizer que colocamos tanto de nós ao assistirmos a um filme que nos é impossível não pensar no momento extraordinário que enfrentamos agora e nas sensibilidades afloradas durante esse período. O próprio fato de ter assistido ao filme online no festival colabora com isso e, de certa forma, ajudou-nos a imergir nele.

Penso também, por fim, no percurso dos curadores do Olhar de Cinema este ano e dos organizadores em geral. Posso apenas imaginar o desafio de iniciar um planejamento e vê-lo ruir nas mãos de um inimigo invisível, para depois renascer em outro formato, e em como a escolha dos filmes ganharam camadas inesperadas de significado. Durante a pandemia, estamos vendo o melhor e o pior das pessoas aflorando: das grandes homenagens aos profissionais da saúde à escolha de esperar mais um pouquinho antes de se aglomerar, da defesa de uma renda básica à recusa de dar um pulinho da casa dos avós para preservá-los, uma corrente de solidariedade cotidiana caminha lado a lado com atos inomináveis, como a profusão de fake news sobre a Covid-19, os “e daí?” acerca das mortes causadas pela doença, passando pela defesa de narrativas políticas perante o valor à vida.

O tempo histórico não apenas envolveu o Olhar de Cinema, mas se impôs a ele. E é bom que isso aconteça. É bom que, uma vez que não possamos nos livrar da pandemia agora, que ela permeie o desfecho brutal de “Nasir”; que nos assombre durante o embate de “Na cabine de exibição”; que nos dê um senso de beleza e esperança com “Victoria” ou “Entre nós talvez estejam multidões”; que nos faça pensar no futuro que se delineia para as crianças em “Um filme dramático”. Quer dizer que ainda sentimos algo.

* Susy Freitas foi júri Abraccine no 9º Olhar de Cinema de Curitiba

Filmes citados

Nasir (Índia/Holanda/Singapura, 2019), de Arun Karthick

Na Cabine de Exibição (Israel/Estados Unidos, 2019), de Ra’anan Alexandrowicz

Los Lobos (México, 2019), de Samuel Kishi

Victoria (Bélgica, 2020), de Sofie Benoot, Liesbeth De Ceulaer e Isabelle Tollenaere

Entre Nós Talvez Estejam Multidões (Brasil, 2020), de Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica

Luz nos Trópicos (Brasil, 2020), de Paula Gaitán

Um Filme Dramático (França, 2019), de Eric Baudelaire

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